quarta-feira, 30 de maio de 2018

Lisboa > Sal > Bissau, 31 Maio 1966 - O início de uma comissão de 2 anos


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 17 de Abril de 2011)


Bilhete de ida, ida simples… de volta, mais à frente se verá!


Era já noite entrada quando o robusto quadrimotor, um DC 6 da FAP, de transporte de páraquedistas, descolou rumo a nenhures… Ninguém nos tinha informado mas sabíamos de antemão que a Guiné ficava lá mesmo, em nenhures. Onde o tempo não tinha significado, a não ser na contagem decrescente para o regresso. Para trás, vida e futuro interrompidos, sonhos e planos abruptamente truncados, com alguma sorte adiados por dois anos, a prosseguir noutra vida mais à frente. Uma mão cheia de interrogações quedavam-se sem resposta.

Em linguagem informática, o meu registo de memória desta época de vida volatilizou-se. Com tanto tempo decorrido, não consigo aceder a qualquer informação, além da genérica e, quando me esforço por trazer a lume factos ou acontecimentos mais pormenorizados, nada está disponível. Não que me seja penoso, mas é-me impossível visualizar os «ficheiros» dos dias anteriores à viagem. Foram mesmo apagados.






O projeto DC-6 nasceu em 1944 como o XC-112 para as Forças Aéreas do Exército dos Estados Unidos. As Forças Aéreas pretendiam uma versão aumentada e pressurizada do C-54, com motores aperfeiçoados. Contudo, na altura em que o XC-112 voou pela primeira vez a Segunda Guerra Mundial já tinha acabado e a Força Aérea deixou cair o seu pedido.
A Douglas converteu então, o seu protótipo num transporte civil (redesignado YC-112A, o qual tinha diferenças significativas em relação aos subsequentes DC-6 de produção) e entregou o primeiro DC-6 de produção em Março de 1947. Contudo, uma série de misteriosos incêndios durante o vôo (incluindo uma queda de uma aeronave da United Airlines) colocaram em terra toda a frota de DC-6. Depois de descoberta a causa, todos os DC-6 foram modificados de modo a corrigir-se o problema, voltando a frota a voar ao fim de quatro meses no solo.
A PanAm usou aeonaves DC-6 na inauguração dos seus voos transatlânticos em classe turística, iniciados em 1952.
Em 1 de Novembro de 1955 uma bomba explodiu a bordo de um DC-6 matando 44 pessoas sobre Longmont nos Estados Unidos.
A United States Air Force passou a utilizar um versão do DC-6, denominada C-118 Liftmaster entre 1957 e 1975.






Preparativos, hora de partida, se terá sido mesmo da Portela ou do Figo Maduro, quem esteve comigo no aeroporto ou quem efectuou comigo a viagem são elementos de contorno difuso, perdidos no tempo. Perdida no tempo, está também a recordação consciente dos camaradas que se juntaram a mim nesta aventura. Se não a totalidade dos que fomos para a Guiné, lembro alguns deles do mesmo curso além de alguns outros passageiros. Talvez tenhamos voado todos mas afinal a esta distância também não é pormenor de importância.

Primeiro Lisboa e o Tejo, depois a costa. Por último, as derradeiras luzes costeiras coseram-se com o horizonte, sumidas na distância. Ficou o roncar ensurdecedor dos motores do avião, rasgando a noite naquele angustiante mergulho, rumo ao desconhecido. Uma espécie de torpor invadia-me, tolhendo-me o pensamento. Lembro-me vagamente de viajar sentado de costas para uma das janelas, por cima da asa esquerda do avião, as luzes de presença da cabine e pouco mais.




Abril 1973 - Um avião Boeing 707 da TAP estacionado na placa do aeroporto da ilha do Sal

Através da vigia, olhava o reflexo incandescente de um dos motores criado pela rotação das pás dos hélices, perguntando-me se seria normal ou se estaria eminente algum acontecimento estranho. Fiquei a saber mais tarde que era possível aos pilotos, em caso de sobreaquecimento, accionarem extintores ou desligarem mesmo um motor pouco colaborante. Tranquilidade acrescida, a transmitida por este conhecimento quarenta e cinco anos depois e, haja Deus, vivo!

Pudemos juntar ao baptismo de voo um autêntico teste de resistência auditiva, embalados aos sacolejões no bojo da barulhenta aeronave, que mais parecia um salvado da segunda guerra mundial com emissões sonoras a nível de um concerto de «hard rock». Os meus camaradas da FAP desculpar-me-ão certamente o meu desabafo pela invasão humorística daquele espaço aéreo.

Quanto a conforto de cabine, podia ter sido feito melhor pelo pessoal. Bem longe das ofertas actuais, eram bancos únicos, corridos, laterais mas em lona, viajando de frente uns para os outros, ainda que de través relativamente ao sentido da viagem. Verdade seja que podíamos conversar, ou melhor, gritar para nos fazermos ouvir, mas a vontade escasseava. Hospedeiras, nem vê-las e a farda 3B com um colarinho a simular um colar cervical, não ajudaram muito a preservar uma imagem cativante do percurso.




1972 - Vista aérea do aeroporto internacional de Bissau e arredores da pista

Depois de uma escala técnica pela ilha do Sal com desentorpecimento de pernas e cerca de nove horas e quarenta e cinco minutos depois, a ruidosa mas ainda confiável «fragata aérea» que se tinha proposto deixar-nos em Bissau, acabou por cumprir a missão. Pousámos em Bissalanca, o aeroporto internacional que servia aquele território onde, depois de aberta a escotilha de saída que melhor simulava uma entrada para o caldeirão do Asterix, tal era a baforada tórrida do ar exterior, nos aguardavam na gare alguns camaradas que espreitavam avidamente os substitutos chegados.

De pouco mais, que este quase nada, me lembro. O tempo decorrido se encarregou também de esfumar a chegada, quem estava ou não, quem me terá feito companhia no transporte utilizado para o percurso até ao início da ponte-cais ou ao Comando de Defesa Marítima da Guiné, no final da Avenida Marginal de Bissau. Este descritivo não abona muito a imagem que de mim fazem alguns camaradas e amigos em termos de memorização de nomes, factos e acontecimentos.




Em cima, uma vista aérea da zona do porto da cidade de Bissau, sendo possível ver, atracados, um NM da Sociedade Geral (CUF), uma LDG a as habituais LFG, LFP e LDM ou LDP;
Em baixo, a praça Nuno Tristão ao fundo da Av. de Portugal, junto à marginal e ao Pijiguiti




Com a imprescindível guia de marcha no bolso lá fui para a competente apresentação naquele Comando, sem qualquer instrução complementar relativamente aos ensinamentos da Escola Naval mas, para a Guiné, também não acrescentaria nada de substantivo.

Sem entrar em aspectos fantasiosos, julgo ter passado primeiro pela LFG «Orion» atracada à ponte-cais de Bissau, onde me apresentei deixando alguns pertences – malas e bagagens – para depois ter ido cumprir aquele dever militar formal, de onde necessariamente me recambiariam, com nova guia, para o navio que viria a tornar-se o meu lar pessoal durante dois anos.




1968 - O Edifício do Comando da Defesa Marítima da Guiné (antigo Edifício da Alfândegas),
aquando da visita do Almirante Américo Tomás àquele território, em momento de cerimonial


O entorpecimento mental era muito e a esta distância temporal tenho dificuldade em focar imagens e acontecimentos, sobretudo a torradeira climática onde tínhamos aterrado para ali permanecer tão alargada temporada. E utilizo o plural porque, para que não me sentisse muito só, alguém teria providenciado de que tivessem sido enviados para o mesmo local, no mesmo transporte e do mesmo curso, o 8.º CEORN, mais doze camaradas, para funções diversas.



Bissau, 1969 - Habitual panorama da asa esquerda da ponte-cais; as LFG Lira» - P 361 e LFG «Sagitário» - P 1131 estão atracadas de braço dado, com a LFP «Canopus» do lado de fora, e ainda uma LDP a ultimar a atracação a esta última

Pode entender-se esta última expressão «para funções diversas» como semanticamente optimista, já que todas elas eram missões desempenhadas na Guiné, em terra ou a navegar mas, mesmo nesta perspectiva mais abrangente, lugares em terra não tinham alicerces tão firmes quanto isso e, lugares a navegar, também podiam vir a efectuar desembarques em terra, nomeados quando necessário ou por mero voluntarismo desportivo. Sabe-o quem lá esteve e eu também tive essa experiência.

Éramos treze na ida e outros tantos regressámos. Facto concreto esse que, no futuro, me ajudou a esconjurar aquela malapata dos treze à mesa, ferrête com que geneticamente vim marcado a este mundo e que ainda hoje apavora a maioria das mesas de muitas lusas famílias. Mesmo no Clube Militar Naval, pode servir de pretexto para manter camaradas separados num almoço de convívio.

Realmente, o treze, continua a ser um número que preocupa mentes mas era de efêmera relatividade comparativamente ao «dois», referente aos anitos de comissão vividos na Guiné que, esses sim, marcavam especial importância na vida cá do indígena.

Aqui ficam registados os nomes da restante dúzia de camaradas que, solidarizando-se, comigo na LFG «Orion», ali partilhámos várias sessões de sauna, em diferentes versões de equipamento naval, ao longo de dois anos de dimensão temporal marcadamente XXL:

2TEN RN Abílio dos Santos Martins Silva, LFG «Hidra»;
2TEN RN Afonso Henriques da Costa, CDMGuiné;
2TEN RN António José Cardoso da Silva, NH «Pedro Nunes»;
2TEN RN Carlos Alberto Lopes, LFP «Canopus»;
2TEN RN Emídio Guilherme Mendes de Aragão Teixeira, LFP «Deneb»;
2TEN RN Jorge Manuel da Silva Calado Marques, LFG «Lira»;
2TEN RN José Carlos Pereira Marques, CDMGuiné;
2TEN RN Júlio Conceição Ribeiro Coelho, Esquadrilha de Lanchas da Guiné;
2TEN RN Manuel de Sousa Santos, LFG «Cassiopeia»;
2TEN RN Manuel Henrique Vieira de Sousa Torres, LFP «Bellatrix»;
2TEN AN RN Álvaro Rodrigues Quintana, Gabinete Militar do Comandante-Chefe da Guiné;
2TEN AN RN José António de Fátima Fragoeiro, CDMGuiné;





Em cima, Abílio Martins Silva, Afonso Henriques da Costa e António Cardoso da Silva e,
em baixo, Carlos Alberto Lopes, Emídio Aragão Teixeira e Jorge Calado Marques








Em cima, José Pereira Marques, Júlio Ribeiro Coelho e Manuel Sousa Santos e,
em baixo, Manuel Lema Santos, Manuel Sousa Torres, Álvaro Henriques Quintana e José António Fragoeiro.






Mais tarde, para ali foram cumprir comissões de serviço outros camaradas do mesmo 8.º CEORN. De 1968/1970, o 2TEN RN José Joaquim de Sousa Ferreira Martins, LFP «Aljezur», tendo prolongado o tempo de permanência na Marinha, veio a ingressar nos Quadros Permanentes no Serviço Especial de Hidrografia.

Ainda outros dois camaradas, da classe de Fuzileiros, após de terem optado por continuar nos Quadros Permanentes e depois de efectuado o curso de Fuzileiro Especial, já no posto de primeiro-tenente, ali desempenharam missões como Comandantes dos DFE 21 e DFE 12, de 1972/1974: os Primeiros-tenentes FZE José Manuel Matos Moniz e Adelino Carlos Mendes da Silva, respectivamente.





José Ferreira Martins, Adelino Mendes da Silva e José Matos Moniz.



Daqui os saúdo a todos, recordando especialmente os que agora já não nos permitem contar tantos. Sermos cada vez menos à mesa da vida, assume ser uma tão inexorável como alheia tendência. Parece ser pertença exclusiva de outros, em espírito por nós rejeitada para, subconsciente e prudentemente, nos mantermos fora da contagem.

Quando não enquadrados numa memória histórica colectiva, a do 8.º CEORN, acontecimentos isolados e não mediatizados, são carimbados como de relevância reduzida. Perder-se-ão inexoravelmente, caídos no caminho do tempo que a tudo relativiza e faz esquecer. Assim não devia ser porque já faltam bem mais do que aqueles de que há conhecimento.




Fontes:
Texto e fotos de arquivo do autor do blogue; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; texto da aeronave DC 6 em http://pt.wikipedia.org/wiki/Douglas_DC-6 com fotos gentilmente cedidas por Victor Barata, http://especialistasdaba12.blogspot.com/; Arquivo de Marinha; Abel de Melo Sousa, 20.º CFORN; Henrique Oliveira Pires, 11.º CFORN;


mls

domingo, 27 de maio de 2018

Entrega de Condecorações à Reserva Naval no dia 11 de Fevereiro de 2000


Nota prévia do autor do blogue:

Este "post" reproduz na íntegra o artigo publicado na Revista n.º 11 da "AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval" de Abril de 2000. Refere uma cerimónia simbólica, havida em 11 de Fevereiro de 2000 na Biblioteca do Estado-Maior da Armada, presidida pelo Superintendente do Serviço de Pessoal, à época o Vice-Almirante José Manuel Castanho Paes.

Agraciados com a Medalha de Mérito Militar de 3.ª Classe:

2TEN RN Luis Alberto Neves Cordeiro, 3.º CEORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN Pedro Norton dos Reis, 3.º CEORN, Angola, LFP «Pollux»;
2TEN RN Rui Horácio da Silva Pires, 3.º CEORN, Angola, LFP «Espiga»;
STEN FZ RN António Luis Marinho de Castro, 8.º CEORN, Angola, CF 1;

Agraciados com a Medalha Comemorativa das Campanhas das Forças Armadas:

2TEN RN José Martins Figueira, 4.º CEORN, Guiné, CDMGuiné;
2TEN RN Rogério Bordalo da Rocha, 8.º CEORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN José Vieira de Sá, 11.º CFORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN MN RN Ricardo Migães de Campos, 11.º CFORN, Moçambique, CF 4;
2TEN RN José Rasquilha de Abreu, 15.º CFORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN António Gravata Filipe, 17.º CFORN, Angola, LFP «Pollux»;
2TEN RN Francisco Cascabulho Tomé, 17.º CFORN, Moçambique, LFP «Saturno»;
2TEN RN Herculano Marques Ferreira, 18.º CFORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN Carlos Magalhâes Oliveira, 21.º CFORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN António José de Oliveira Brás, 23.º CFORN, Angola, LFP «Rigel»;




Entrega de Condecorações à Reserva Naval no dia 11 de Fevereiro de 2000




Em cima o grupo dos condecorados e, em baixo,
o Vice-Almirante José Manuel Castanho Paes proferindo a sua alocução





Na Biblioteca do Estado-Maior da Armada, presidida pelo Vice-Almirante José Manuel Castanho Paes, Superintendente do Serviço do Pessoal, teve lugar no passado dia 11 de Fevereiro, a cerimónia de entrega de condecorações a 14 Oficiais da Reserva Naval a quem as mesmas tinham sido concedidas em épocas remotas e cuja publicação em Ordens do Dia à Armada de então, oficializara.

Da relação constavam 4 Medalhas de Mérito Militar de 3ª Classe, atribuídas em 1964 aos 2º Tenentes Luís Alberto Neves Cordeiro, Pedro Norton dos Reis e Rui da Silva Pires, do 3º CEORN e, em 1968, a António Luís Marinho de Castro (8º), e 10 Medalhas das Campanhas das Forças Armadas, atribuídas em 1964 a José Martins Figueira (4º), em 1968 a Rogério Bordalo da Rocha (8º), em 1970 a José Vieira de Sá (11º) e a Ricardo Migães de Campos (11º), em 1972 a José Rasquilha de Abreu (15º), em 1974 a António Gravata Filipe (17º), Francisco Cascabulho Tomé (17º) e HerculanoMarques Ferreira (18º) e, em 1976, a Carlos Magalhães Oliveira (21º) e a António José de Oliveira Brás (23º).

Evocada pelo Vice Almirante Castanho Paes a memória de Francisco Cascabulho Tomé, entretanto falecido, foi guardado um minuto de silêncio, tendo a condecoração sido entregue a seu filho Francisco Tomé.




Entrega da condecoração a Francisco Tomé em representação de seu pai

As palavras de Alfredo Lemos Damião, pela AORN, realçaram o simbolismo da cerimónia e o significado da passagem dos RN pela Marinha, mesmo em circunstâncias difíceis, sem cuidar de recompensas. O facto de muitos dos agraciados se encontrarem na situação de licenciados quando a publicação em OA se verificou, originou o desconhecimento da concessão das respectivas medalhas.

Em nome dos condecorados, António José de Oliveira Brás, último Comandante do NRP «Rigel», uma das lanchas da classe Bellatrix em serviço em Angola, cumprindo por praxe o “direito ao mais moderno usar da palavra”, em sentido improviso agradeceu à Marinha a cerimónia e recordou a figura do Vice-Almirante Jaime Barata Botelho, Vice-CEMA, recentemente falecido, que fora o seu último Comandante em Angola e a quem o ligavam laços de muita amizade, nascida nessa época de comissão e continuada em Lisboa, ao longo de váriosanos.




António Oliveira Brás agradecendo, em nome dos condecorados

O Vice Almirante Jaime Barata Botelho, que a Marinha recorda com muita saudade, foi também para a Reserva Naval, desde sempre e mais recentemente para a AORN, quer como Director do ISNG, quer no Estado-Maior da Armada, um Amigo Grande.

Diversos oficiais de Marinha associaram-se à cerimónia, que contou ainda com familiares e amigos dos condecorados.

Na ocasião, o Vice-Almirante Castanho Paes dirigiu aos presentes as seguintes palavras: «É para mim uma grande honra e é também com muito prazer que o faço, presidir em nome do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, a esta cerimónia de entrega de condecorações a ex-oficiais da nossa saudosa Reserva Naval. E digo “saudosa Reserva Naval”, não só por referência ao passado, ao considerar a reconhecida utilidade e mérito que a sua existência trouxe à Marinha, designadamente numa época em que o País passou pelas conhecidas dificuldades políticas e sociais que caracterizaram a situação nacional durante as campanhas ultramarinas e período subsequente, mas também por referência ao próprio presente.




Herculano Marques Ferreira recebendo a sua medalha

E refiro o presente, porque no exercício das minhas funções de Superintendente dos Serviços do Pessoal, não raras vezes me tem ocorrido a ideia de quão vantajoso seria para o funcionamento da Marinha de hoje fazer ressuscitar a Reserva Naval. É que no actual quadro de funcionamento de recursos e vocações escassas com que a Marinha se defronta, face ao que crescentemente lhe tem vindo a ser exigido, dispôr-se com as facilidades de então de um válido corpo de oficiais, capaz de suprir as lacunas conjunturais dos seus quadros permanentes e, oferecendo-lhe ainda as mais valias resultantes de um alargado relacionamento com potenciais dirigentes, das mais diversas actividades e sectores da vida nacional, seria sem dúvida, como o foi no passado, um benefício de valor inestimável.

Contudo, as organizações com responsabilidades públicas não podem viver de sonhos mas sim da realidade e, nesta óptica, não estou aqui para falar das dificuldades da Marinha, mas antes de mais para saldar uma dívida dela para com um conjunto dos seus servidores que lhe dedicou um período significativo das suas próprias vidas. Um período que acarretou certamente sacrifícios pessoais para muitos mas que foi, em maior ou menor medida, compensado pela vivência de uma experiência humana, social e profissional certamente enriquecedora.




Neves Cordeiro, Silva Pires, Cmdte Rui Pires dos Santos e Pedro Norton Reis

É com certeza porque não consideraram o período do serviço prestado na Marinha como tempo perdido, que os Senhores Tenentes da Reserva Naval, que dentro de momentos vão ser condecorados, decidiram aqui comparecer. Por outro lado, gostaria de lembrar que, para além de nesta cerimónia me ter cabido a honra de representar o Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, me sinto também de certa forma como representante dos comandantes, directores ou chefes que, por razões que seria agora despropositado tentar justificar, vos não puderam impôr pessoal e oportunamente, as condecorações que merecidamente lhes foram concedidas. Porém, como mais vale tarde que nunca, bem hajam pelo vosso empenho em querer receber estas simbólicas recordações de um passado que de todo não quiseram esquecer.

Por fim, aproveito a oportunidade para pessoalmente felicitar a AORN por esta feliz iniciativa, a qual se insere no conjunto de acertados rumos que tem vindo a prosseguir na viagem que se propôs realizar. Bons ventos continuem a acompanhá-la, são os meus sinceros votos.Não queria terminar sem uma referência muito especial ao nosso camarada Dr. Francisco Cascabulho Tomé que, por fatalidade do destino já não pode estar aqui connosco senão em pensamento. A sua manifesta vontade de comparecer nesta cerimónia, apesar de já gravemente doente, não pode deixar de nos comover, pelo que revela em termos da sua estatura moral, mesmo para aqueles que, como eu, não tiveram a oportunidade de o conhecer.

À sua família, que teve a coragem de partilhar este momento connosco, apresento as sentidas condolências do Almirante Chefe do Estado Maior da Armada e as minhas condolências pessoais, pedindo a todos os presentes o favor de me acompanharem num minuto de silêncio em sua honrada memória.»




Comentários finais do autor do blogue:

Entre 1958 e 1975 tiveram lugar na Escola Naval 25 cursos de Oficiais da Reserva Naval, num total de 1.712 oficiais daquele Quadro de Complemento, distribuídos pelas várias classes de oficiais até então criadas.

No decorrer daquele período, especialmente depois de ter eclodido a Guerra do Ultramar, foram destacados para missões de serviço nos vários teatros de conflito entre LFG – Lanchas de Fiscalização Grandes, LDG – Lanchas de Desembarque Grandes, LFP – Lanchas de Fiscalização Pequenas, DFE – Destacamentos de Fuzileiros Especiais, CF – Companhias de Fuzileiros e Unidades e Serviços em terra:

Guiné: 254 oficiais;
Angola: 264 oficiais;
Moçambique: 217 oficiais;
Cabo Verde: 35 oficiais;
Macau: 1 oficial;
Timor: 2 oficiais;

A este total de 773 oficiais haverá ainda que adicionar as comissões efectuadas em unidades navais de maior porte, tais como navios-patrulhas, navios hidrográficos, fragatas, corvetas, destroyers, etc., de que não será muito fácil efectuar pesquisa ou controlo rigoroso e exaustivo. De forma proximada, quase um milhar de oficiais da Reserva Naval terão efectuado comissões de serviço no período da Guerra do Ultramar em Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Macau e também Timor.

Naquela cerimónia, organizada pela AORN sob proposta do seu Secretário-Geral de então, José Augusto Paes Pires de Lima do 4.º CEORN, ele próprio tendo desempenhado as funções de comandante da LFP «Fomalhaut», qual o critério de selecção e escolha que permitiu concluir ser aquele conjunto representativo de quase um milhar de oficiais da Reserva Naval que, com toda a justiça, teriam direito a serem condecorados da mesma forma que 10 dos 14 galardoados com a Medalha Comemorativa das Campanhas das Forças Armadas?

Considerando indiscutível o elevado espírito que presidiu à organização da cerimónia ainda que reduzido a um mero simbolismo institucional - na impossibilidade de estarem presentes todos os oficiais com direito a condecoração por legislação própria - como se explica uma selecção em que, dos 14 oficiais da Reserva Naval presentes, 11 tenham desempenhado missões como Comandantes de LFP – Lanchas de Fiscalização Pequenas? Mais estreito ainda na selecção parece ser o critério de que, dos 11 oficiais acima referidos, 6 deles terem sido comandantes da LFP «Fomalhaut».

Não teria sido possível uma amostragem mais representativa e alargada entre quase um milhar de Oficiais da Reserva Naval distribuídos pelas diferentes classes e tendo desempenhado funções noutras unidades navais ou ainda em unidades e serviços em terra, seleccionados dos vários teatros em que decorreu a Guerra do Ultramar?

Como alguns que ali estiveram presentes ou representados por familiares, muitos outros já não se encontravam entre nós, impedidos pelo destino último de poderem partilhar aquele momento de elevação com a Instituição e Camaradas, o que também lhes ficou devido.




Fontes:
Texto e fotos de arquivo do autor do blogue, ao tempo já publicadas na Revista n.º 11 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Abril 2000, em artigo redigido por José Pires de Lima, 4.º CEORN, Secretário-Geral da AORN e também ele, antigo comandante da LFP «Fomalhaut»; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005;


mls

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Moçambique, LFP «Urano» - P 1137


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Urano» - P 1137

(Post actualizado a partir de outro já publicado em 7 de Dezembro de 2016)




Dupla epopeia do transporte por terra da LFP «Urano» com a LFP «Saturno»


A LFP - Lancha de Fiscalização Pequena «Urano» foi construída nos Estaleiros Navais do Mondego e aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 12 de Agosto de 1965.

Características, máquinas propulsoras, equipamento, armamento e lotação de acordo com o seguinte quadro e idênticas às da LFP «Júpiter»:




Depois de um período alargado de adestramento, exercícios e provas diversas, desempenhou diversas missões de apoio ao serviço de hidrografia e fiscalização da pesca durante todo o ano de 1966.

Em 9 de Junho de 1967 embarcou no NM «Beira», juntamente com a LFP «Saturno» com destino a Moçambique, tendo sido desembarcadas e postas a flutuar, junto da Ilha de Moçambique, em 14 de Julho, com o objectivo de seguirem para o Lago Niassa por via terrestre.

Atribuídas ao Comando Naval de Moçambique em 14 de Julho, ambas as lanchas foram integradas numa operação denominada de "Roaz", tendo sido aladas nos respectivos berços no Lumbo, colocadas em plataformas dos Caminhos de Ferro de Moçambique, seguindo por via ferroviária até ao Catur onde chegaram a 4 de Agosto. A viagem prosseguiu depois para Meponda por via rodoviária onde chegaram a 10 de Agosto.




Outra imagem do mesmo transporte da LFP «Urano»

Depois de algumas montagens e reabastecimentos deixaram Meponda, chegando a Metangula no mesmo dia. Passaram a estar integradas na Esquadrilhas de Lanchas do Lago Niassa com missões de fiscalização e patrulha, quer do canal Likoma - Chigoma, quer das águas entre Metangula e as fronteiras norte e sul do Lago.

Prestaram apoio a operações com os DFE e transporte de FTs, efectuando reabastecimentos e transporte de pessoal e material entre os vários pontos do Lago Niassa, com Base Naval em Metangula.

Durante quase 8 anos, a partir da Base Naval de Metangula, o navio desempenhou as mais diversas missões operacionais nas águas portuguesas do Lago Niassa.

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada no dia 31 de Março de 1975.




Ainda uma terceira imagem do mesmo transporte da LFP «Urano»


Comandaram a LFP «Urano» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Fernando Augusto Pacheco da Costa, 7.º CEORN, 12Ago65/02Jul66;
2TEN RN João da Silva Boavida Canada, 7.º CEORN, 06Jul66/28Abr67;
2TEN RN Rogério Vieira de Sá, 9.º CFORN, 28Abr67/11Mai69;
2TEN RN António Carlos da Silva Carneiro, 17.º CFORN, 16Jun71/21Mai73;
2TEN RN José Manuel Proença Cameira, 20.º CFORN, 21Mai73/31Mar75;

Comandou a LFP «Urano» o seguinte oficial do QP:

2TEN José Maria da Silva Horta, 11Mai69/16Jun71;

Navios da mesma classe: LFP «Júpiter», LFP «Vénus», LFP «Marte», LFP «Mercúrio» e LFP «Saturno».


Fontes:
Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005; Texto e fotos de arquivo compilados pelo autor do blogue; cedência de imagens de Manuel Alves da Silva, CF 2 - Moçambique, 1962/65, em http://companhia2fz.blogspot.com/


mls

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Moçambique, LFP «Saturno» - P 1136


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Saturno» - P 1136

(Post actualizado a partir de outro já publicado em 7 de Dezembro de 2016)




A verdadeira epopeia do transporte por terra da LFP "Saturno"


A LFP - Lancha de Fiscalização Pequena «Saturno» foi construída nos Estaleiros Navais do Mondego e aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 29 de Junho de 1965.

Características, máquinas propulsoras, equipamento, armamento e lotação de acordo com o seguinte quadro e idênticas às da LFP «Júpiter»:




Depois de um período alargado de adestramento, exercícios e provas diversas, desempenhou diversas missões de apoio ao serviço de hidrografia durante todo o ano de 1966.

Em 9 de Junho de 1967 embarcou no NM «Beira», juntamente com a LFP «Urano» com destino a Moçambique, tendo sido desembarcadas e postas a flutuar, junto da Ilha de Moçambique, em 14 de Julho, com o objectivo de seguirem para o Lago Niassa por via terrestre.

Atribuídas ao Comando Naval de Moçambique em 14 de Julho, ambas as lanchas foram integradas numa operação denominada de "Roaz", tendo sido aladas nos respectivos berços no Lumbo, colocadas em plataformas dos Caminhos de Ferro de Moçambique, seguindo por via ferroviária até ao Catur onde chegaram a 4 de Agosto. A viagem prosseguiu depois para Meponda por via rodoviária onde chegaram a 10 de Agosto.




Outra imagem do mesmo transporte da LFP «Saturno»

Depois de algumas montagens e reabastecimentos deixaram Meponda, chegando a Metangula no mesmo dia. Passaram a estar integradas na Esquadrilhas de Lanchas do Lago Niassa com missões de fiscalização e patrulha, quer do canal Likoma - Chigoma, quer das águas entre Metangula e as fronteiras norte e sul do Lago.

Prestaram apoio a operações com os DFE e transporte de FTs, efectuando reabastecimentos e transporte de pessoal e material entre os vários pontos do Lago Niassa, com Base Naval em Metangula.

Durante quase 8 anos, a partir da Base Naval de Metangula, o navio desempenhou as mais diversas missões operacionais nas águas portuguesas do Lago Niassa.

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada no dia 31 de Março de 1975.

Comandaram a LFP «Saturno» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Francisco Parente Mendes Godinho, 7.º CEORN, 29Jul65/14Nov66;
2TEN RN António Roque de Andrade Afonso, 9.º CFORN, 02Jun67/04Jun69;
2TEN RN José Luis Correia Belo, 13.º CFORN, 04Jun69/17Mai71;
2TEN RN Francisco Cascabulho Tomé, 17.º CFORN, 17Mai71/15Mai73;
2TEN RN Joaquim José Tição Teixeira Sampaio, 20.º CFORN,15Mai73/14Out74;
2TEN RN Manuel Joaquim Couto Alves dos Reis, 21.º CFORN,14Out74/31Mar75;

Quadros Permanentes:

1TEN João Geraldes Freire, 14Nov66/03Dez66;
1TEN António Maria de Sá Alves Sameiro, 03Dez66/02Jun67;

Navios da mesma classe: LFP «Júpiter», LFP «Vénus», LFP «Marte», LFP «Mercúrio» e LFP «Urano».


Fontes:
Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005; Texto e fotos de arquivo compilados pelo autor do blogue; cedência de imagens de Manuel Alves da Silva, CF 2 - Moçambique, 1962/65, em http://companhia2fz.blogspot.com/


mls

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Moçambique, LFP «Mercúrio» - P 1135


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Mercúrio» - P 1135




A LFP "Mercúrio" a navegar


A LFP - Lancha de Fiscalização Pequena «Mercúrio» foi construída nos Estaleiros Navais do Mondego e aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 18 de Junho de 1965.

Características, máquinas propulsoras, equipamento, armamento e lotação de acordo com o seguinte quadro:




Foi transportada para Moçambique juntamente com a LFP «Marte» a bordo do NM «Beira». Ambas foram desembarcadas e postas a flutuar junta Ilha de Moçambique em 4 de Setembro de 1965, tendo os respectivos berços sido desembarcados em Nacala, de onde foram transportados via terrestre para o Lumbo, o terminal ferroviário mais próximo.

Na noite de 17 para 18 de Setembro de 1965, no Lumbo, foi feita a primeira tentativa de encalhe dos navios nos respectivos berços que não teve êxito. Os navios voltaram ao mar e a entidade responsável pela operação - Caminhos de Ferro de Moçambique - desistiu do trabalho. De Lisboa vieram então ordens para que o Comando Naval de Moçambique assumisse a plena responsabilidade pela operação.

Em nova tentativa, de 11 para 12 de Outubro de 1965, a LFP «Mercúrio» "adormeceu" com êxito no respectivo berço e, 16 dias depois, também a LFP «Marte» foi colocada no seu berço. Acompanhadas pelos respectivos comandantes, os dois navios seguiram por via férrea, por Nampula até Catur e depois, por estrada, por Vila Cabral até Meponda, nas margens do Lago Niassa.

Após mais de 700 quilómetros de percurso a operação terminara com sucesso no dia 19 de Dezembro de 1965. Foram atribuídas ao Comando da Esquadrilha de Lanchas do Lago Niassa.

Durante mais de 9 anos, a partir da Base Naval de Metangula, o navio desempenhou as mais diversas missões operacionais nas águas portuguesas do Lago Niassa.

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada no dia 31 de Março de 1975.

Comandaram a LFP «Mercúrio» os seguintes oficiais:

Quadros Permanentes:

2TEN José Deolindo Torres Sobral, 28Jul65/05Mai67;

Reserva Naval:

2TEN RN Manuel Alexandre de Sousa Pinto Agrelos, 9.º CEORN, 05Mai67/01Ago68;
2TEN RN João Carlos de Castro Fonseca, 9.º CFORN, 05Mai67/04Jun69;
2TEN RN Manuel Agostinho de Castro Freire de Menezes, 11.º CFORN, 01Ago68/06Mai70;
2TEN RN Jorge Manuel Canossa da Silva, 15.º CFORN, 06Mai70/16Mai72;
2TEN RN Luis Alexandre Lynce de Faria, 18.º CFORN, 16Mai72/16Out73;
2TEN RN Carlos Eduardo Campos Valgode, 21.º CFORN, 16Out73/31Mar75;

Navios da mesma classe: LFP «Júpiter», LFP «Vénus», LFP «"Marte», LFP «"Urano» e LFP «"Saturno".


Fontes:
Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005; Texto e fotos de arquivo compilados pelo autor do blogue;


mls

sábado, 12 de maio de 2018

Moçambique, LFP «Marte» - P 1134


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Marte» - P 1134




A LFP "Marte" a navegar


A LFP - Lancha de Fiscalização Pequena «Marte» foi construída nos Estaleiros Navais do Mondego e aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 18 de Junho de 1965.

Características, máquinas propulsoras, equipamento, armamento e lotação de acordo com o seguinte quadro:




Foi transportada para Moçambique juntamente com a LFP «Mercúrio» a bordo do NM «Beira». Ambas foram desembarcadas e postas a flutuar junta Ilha de Moçambique em 4 de Setembro de 1965, tendo os respectivos berços sido desembarcados em Ncala, de onde foram transportados via terrestre para o Lumbo, o terminal ferroviário mais próximo.

Na noite de 17 para 18 de Setembro de 1965, no Lumbo, foi feita a primeira tentativa de encalhe dos navios nos respectivos berços que não teve êxito. Os navios voltaram ao mar e a entidade responsável pela operação - Caminhos de Ferro de Moçambique - desistiu do trabalho. De Lisboa vieram então ordens para que o Comando Naval de Moçambique assumisse a plena responsabilidade pela operação.

Em nova tentativa, de 11 para 12 de Outubro de 1965, a LFP «Mercúrio» "adormeceu" com êxito no respectivo berço e, 16 dias depois, também a LFP «Marte» foi colocada no seu berço. Acompanhadas pelos respectivos comandantes, os dois navios seguiram por via férrea, por Nampula até Catur e depois, por estrada, por Vila Cabral até Meponda, nas margens do Lago Niassa.

Após mais de 700 quilómetros de percurso a operação terminara com sucesso no dia 19 de Dezembro de 1965. Foram atribuídas ao Comando da Esquadrilha de Lanchas do Lago Niassa.

Durante mais de 9 anos, a partir da Base Naval de Metangula, o navio desempenhou as mais diversas missões operacionais nas águas portuguesas do Lago Niassa.

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada no dia 31 de Março de 1975.

Comandaram a LFP «Marte» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Manuel Mendes de Almeida Abecassis, 7.º CEORN, 08Jun65/05Mai67;
2TEN RN João Carlos de Castro Fonseca, 9.º CFORN, 05Mai67/04Jun69;
2TEN RN João Luis da Silva e Noronha Falcão, 13.º CFORN, 04Jun69/23Mai70;
2TEN RN José Luis Tocha Antunes dos Santos, 12.º CFORN, 23Mai70/26Out70;
2TEN RN Carlos Pedro Amorim Marques da Silva, 16.º CFORN, 26Out/16Jun71;
2TEN RN Joaquim João Ferreira Barrocas Dórdio, 17.º CFORN, 16Jun71/25Mai73;
2TEN RN Décio Mário Baganha Fernandes,20.º CFORN, 25Mai73/31Mar75;

Navios da mesma classe: LFP «Júpiter», LFP «Vénus», LFP «"Mercúrio», LFP «"Urano» e LFP «"Saturno".


Fontes:
Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005; Texto e fotos de arquivo compilados pelo autor do blogue;


mls

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Moçambique, LFP «Antares» - P 360


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Antares» - P 360




A LFP "Antares" a navegar ao largo de Porto Amélia (Nova Pemba)


A LFP (Lanchas de Fiscalização Pequena) «Antares» foi construída nos estaleiros James Taylor Shipbuilders, Ltd., em Shoreham-Sussex, na Inglaterra e, o seu casco em fibra de vidro, construído em Portsmouth pela firma Halmatic, Ltd. Logo que pronto, o navio seguiu da Inglaterra para a Índia a bordo do navio mercante Hunze, tendo chegado ao porto de Mormugão em Agosto de 1959.

Aumentado ao efectivo dos navios da Armada em 29 de Setembro do mesmo ano, efectuou missões de fiscalização em Goa com um largo período de permanência em Damão, de Outubro de 1960 a Março de 1961.

Características, máquinas propulsoras, equipamento, armamento e lotação de acordo com o seguinte quadro:



Encontrava-se de novo em Damão quando, em 18 de Dezembro de 1961, ocorreu a invasão do Estado da Índia pela União Indiana, dia em que se perderam as lanchas «Sirius» e «Vega» respectivamente em Goa e Diu, sem quaisquer possibilidades de participar na defesa dos ataques aéreos.

Consumada a ocupação indiana de Damão de pois de “36 horas de árduos combates” em terra como o atesta um obelisco colocado pelas Forças Armadas Indianas em Damão Pequeno, o comandante do navio, então o 2TEN Fausto Morais de Brito e Abreu, decidiu navegar para o porto neutro de Karachi numa viagem feita com tempo desfavorável e no limite das possibilidades náuticas do navio, iludindo a vigilância aero-naval indiana durante dois dias, evitando que navio e guarnição fossem capturados.

Permaneceu durante alguns meses atracado naquele porto, sendo embarcado em 9 de Maio de 1962 com destino a Lisboa a bordo do N/M Pátria, onde chegou no dia 26 do mesmo mês. A partir daquela data e até ao final de Setembro, esteve em reparações no Arsenal do Alfeite, devido a danos sofridos na amura pela deficiente colocação da lancha no berço, aquando do embarque em Karachi.

No princípio de Outubro, concluídos os fabricos, foi embarcado no N/M Rovuma com destino a Porto Amélia e atribuído com carácter permanente àquele Comando de Defesa Marítima em Moçambique a partir de Novembro.




Em cima Porto Amélia (Nova Pemba) e e, em baixo, 1967, Dia da Marinha, a LFP «Antares»
atracada de braço dado com a LFG «Dragâo» em Porto Amélia




Passou a efectuar missões de fiscalização nas águas interiores, entre aquela base e a foz do rio Rovuma, com especial incidência nas ilhas do arquipélago das Quirimbas, escalando frequentemente os pequenos portos do Ibo, Mocimboa da Praia, Palma e Quionga.

Durante mais de uma dezena de anos constituiu uma presença permanente da Marinha, por vezes única, nas águas do norte de Moçambique, prestando diversificados apoios às autoridades e populações, sobretudo em áreas mais isoladas pela guerra.




A LFP «Antares» a navegar ao largo de Porto Amélia

Comandaram a LFP «Antares» os seguintes oficiais:

Quadros Permanentes:

2TEN Carlos Pereira Simões, 22Set59/29Set60;
2TEN Fausto Morais de Brito e Abreu, 29Set60/27Nov62;
2TEN João José Godinho Leite Novais, 27Nov62/22Jul65;
2TEN José Alexandre Duarte Reis, 22Jul65/3Jun67;
2TEN Adelino Braz Rodrigues da Costa, 23Jun67/16Jul68;
2TEN Zenóbio José Roque Cavaco, 16Jul68/06Jul70;

Reserva Naval:

2TEN RN José da Conceição Rego de Melo e Castro, 15º CFORN, 06Jul70/24Mai72;
2TEN RN João Manuel Esteves, 18º CFORN, 24Mai72/09Ago73;
2TEN RN Carlos Manuel Pereira da Silva, 21º CFORN, 09Ago73/31Mar75;




Porto Amélia - A LFP «Antares» em trabalhos de conservação e manutenção (fabricos)

Em 31 de Março de 1975. em Porto Amélia, foi abatida ao efectivo dos navios da Armada.

Segundo as edições da Jane’s Fghting Ships posteriores a 1976, ainda terá navegado com a bandeira da República de Moçambique durante alguns anos.

A LFP «Antares» foi a primeira da classe a que pertenceram também as LFP «Sirius», «Vega» e «Régulus».


Fontes:
Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005; Texto e fotos de arquivo compilados pelo autor do blogue - Fotos do Arquivo de Marinha e Revista da Armada n.º 255;


mls

domingo, 6 de maio de 2018

Guiné, Canchungo - Memória de João de Teixeira Pinto


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 27 de Março de 2011)

Memória de João de Teixeira Pinto




João Teixeira Pinto
(1876-1917)



Nascido em Moçâmedes, Angola, a 22 de Março de 1876 era filho e neto de oficiais que, em África, se haviam já distinguido pela sua valentia, sendo o seu pai, do mesmo nome, João Teixeira Pinto, ali conhecido pelos indígenas pelo sobrenome de Kurica (leão), que igualmente veio a ser aplicado ao filho.

A sua larga e honrosa folha de serviços pantenteia as altas qualidades do homem de armas e do organizador colonial. Depois de completados os seus estudos no Continente e promovido a alferes para o Regimento de Infantaria nº 5, em 1899, foi deslocado em comissão para Angola, no posto imediato, na 2ª Companhia Mista de Artilharia de Montanha e Infantaria. Terminada a comissão de serviço regressou ao Ministério da Guerra, sendo colocado em Infantaria nº 7.

De novo colocado em Angola, desembarca em Luanda em 1 de Janeiro de 1905, assumindo o cargo de secretário do Governo de Moçâmedes, sendo depois transferido, a seu pedido, para o Batalhão Disciplinar, de onde transita, em 6 de Setembro para o comando militar de Dongoena onde se distingui pela sua bravura em combate. Regressado ao Continente no final desta comissão, em 29 de Janeiro de 1907, foi colocado no Batalhão de Caçadores nº 4.




Guiné (1961) - A Vila de Teixeira Pinto com acesso pelo rio Mansoa

Com nova comissão atribuída em Angola, a ela regressa em 1 de Junho, indo integrar a 16ª Companhia Indígena de Infantaria. Foi depois nomeado, sucessivamente, chefe do Concelho de Humbe, comandante interino da 18ª Companhia Indígena (Março de 1908) e, de novo, voltou a administrar a Circunscrição de Humbe e ainda a capitania-mor dos Luchazes, de onde regressou a Portugal, por parecer da Junta de Saúde, sempre com serviços distintos pelos quais foi louvado.

Promovido a capitão em 5 de Agosto de 1909, volta a ser colocado em Angola em 7 de Setembro, sendo colocado na 10ª Companhia Indígena de Infantaria, transitando para o cargo de Administrador do Bailundo em 2 de Janeiro de 1910 e, depois, para o corpo da Polícia de Luanda, em 22 de Março. Depois de também ter desempenhado o cargo de administrador do concelho, desistiu da comissão militar e regressou a Portugal onde ainda passou pelos Regimentos de Ingantaria, 21, 15 e 11.

Em 14 Setembro de 1912 rumou para a Guiné onde desembarcou em Bolama em 23 de Dezembro, nomeado, para o cargo de chefe do Estado-Maior da Província. Nessa altura, a administração desta colónia encontrava-se totalmente negligenciada e alvo da cobiça e ambições de outras potências coloniais.




Guiné (anos '60) - A Praça Teixeira Pinto vendo-se, ao fundo da avenida, a Praça do Governador



Teixeira Pinto resolve por cobro a tão desprimorosa situação, após cuidado estudo das condições precárias em que a colónia se encontrava, para tal fim lançando mão dos exíguos elementos locais, únicos de que podia dispor. «Um grande chefe e um punhado de oficiais portugueses que dificilmente passarão de uma dúzia – e os auxiliares indígenas, fanatizados de glória e de adoração pelo chefe, que neles incutiu confiança, que os preparou para a acção necessária e os levou sempre à vitória. Eis tudo. E bastou para uma das mais rápidas e eficazes ocupações militares nas colónias e para a integral pacificação da Guiné».

Desde o início de 1913 e até meados do ano seguinte sucederam-se inúmeras operações e combates por todo o território e, em 2 de Julho de 1914 Teixeira Pinto embarcou para Bolama, deixando definitivamente pacificada toda a região acabada de ocupar, tendo submetido os manjacos e balantas.

Aproveita para vir à Metrópole retemperar a saúde e as forças e para remover a oposição dos que se manifestavam contra a ocupação da ilha de Bissau. Por portaria de 13 de Maio de 1915, foi mandada organizar a coluna de operações contra os papéis e os grumetes de Bissau, que haveria de ultimar a ocupação e a pacificação da Guiné.

Chefiada por Teixeira Pinto, esta coluna trava duros combates em Bissau; durante a marcha para Safim, em Junho de 1915, foi gravamente ferido, mas manteve-se imperturbável à testa da coluna até se ver forçado a confiar o comando a outro oficial (tenente Sousa Guerra) e a recolher a Bissau. Mas a 1 de Julho, e ainda mal restabelecido, reassume o comando das operações da coluna até chegar triunfante a Bissau.

Quando a gloriosa coluna foi dissolvida, a ocupação da Guiné, firmada nos postos de Bór, Safim, Bejemita e Biombo, podia considerar-se completa. Chamado à Metrópole, ao Ministério das Colónias, foi dispensado das condições exigidas para a promoção a major, em consideração dos serviços prestados na ocupação da Guiné, sendo colocado em Infantaria nº 16. Promovido em 10 de Março de 1916, embarcou desta feita para a província de Moçambique para fazer parte das Companhias Indígenas Expedicionárias àquela província, para sua defesa contra os alemães.

Em 25 de Novembro de 1917, após inúmeros combates na tentativa de rechaçar o invasor, os alemães deram início à invasão da província de Moçambique, destroçando um destacamento das nossas forças em Negomano, em cuja defesa o seu heróico comandante, major João Teixeira Pinto, encontrou a morte.
Assim terminou a brilhante e meritória carreira do bravo oficial, toda nobremente dedicada ao serviço da Pátria que lhe conferiu numerosos louvores , destacando honrosamente a sua valentia, heroísmo e espírito de sacrifício.






Um exemplar da nota de 50 escudos (pesos) emitida pelo Banco Nacional Ultramarino, em 1964,
com a efigie de Teixeira Pinto






Após o final da guerra, a República da Guiné-Bissau sofreu das normais vicissitudes resultantes da alteração de regimes políticos por via dos conflitos armados, e foram vários, com adaptação da sociedade civil a transformações sociais profundas, marcadas pela necessidade de eliminar quaisquer vestígios físicos, históricos ou arquitectónicos, nascidos durante a vigência ou pela mão de outro regime anterior considerado hostil.

Lá, também como cá, ou em qualquer outro local de convulsões sociais, a memória histórica não é susceptível de ser apagada por mera vontade de momento, mesmo que compreensivelmente alicerçada em recentes feridas de guerra, abertas de ambos os lados e ainda por sarar.

Sobreviveram pessoas, relatos, documentação e registos que darão, em devido tempo, lugar a pesquisa e investigação, cabendo a sociólogos e historiadores a construção de uma História dinâmica, sem hermetismos autocráticos





Cacheu - Em 2008 e 2007, o Monumento a Teixeira Pinto, desmantelado, dentro do forte e na área exterior que o circunda



Fontes:
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira – Volume XXXI – Agosto 1978; fotos e Bilhetes Postais, Colecção «Guiné Portuguesa - Foto-Serra, Bissau, cedidas pelo Dr. Carlos Silva (ex-Furriel Mil, CCaç 2548); Carta da Província da Guiné (pormenor), Ministério do Ultramar, 1961;


mls

Guiné, 1990 - Os degredados do forte do Cacheu

Guiné, 1990 - Os degredados do forte do Cacheu (Post reformulado a partir de outro já publicado em 2 de Abril de 2011) No interior do forte ...