sexta-feira, 30 de março de 2018

Bissau - Memória de Honório Barreto


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 5 de Janeiro de 2011)

Honório Pereira Barreto - Governador da Guiné


No seguimento de anteriores publicações, evocamos agora Honório Barreto, figura política que merece destaque na consolidação do percurso histórico da Guiné numa alongada primeira metade do século XIX, ainda que seja frequente e historicamente apelidado de vilão e controverso.

Nascido em Cacheu no dia 24 de Abril de 1813, filho de mãe guineense e pai cabo-verdiano, ascendeu três vezes em períodos diferentes e por mérito próprio ao posto de Administrador, ao tempo a hierarquia máxima daquela então Província.




Em cima, em grande plano, o monumento a «Honório Barreto» e, em baixo, vista geral da praça com o seu nome vendo-se por detrás o «Hotel Portugal»



Pese embora aquela região de África ter sido palco de intensas lutas e comércio de escravos, este último de forma obscura também por ele mantido, as fronteiras da Guiné foram marcadas e delimitadas muito por mérito daquele político e militar que, pela suas qualidades de dirigente, se opôs com determinação e eficácia à ganância inglesa. Não fora a sua visão estratégica e tenacidade, a Guiné teria hoje fronteiras bem mais reduzidas.




Bissau - Avenida Carvalho Viegas desembocando ao fundo na praça Honório Barreto

A partir de 1800, a Inglaterra começara a exercer influência na Guiné, reivindicando a tutela da ilha de Bolama, arquipélago dos Bijagós, Buba e todo o litoral costeiro. Destaca-se nesta altura a figura do guineense Honório Barreto, provedor do Cacheu em 1834, o qual teve uma acção notável à frente do governo daquela Província.

Em 1870, com arbitragem do presidente dos EUA, Ulysses Grant, a Inglaterra abandona as pretensões sobre Bolama e zonas adjacentes e, em Maio de 1886, são delimitadas as fronteiras entre a Guiné Portuguesa e a África Ocidental Francesa, passando a região de Casamança para o controlo da França, por troca com a região de Quitafine, no sul do território (Cacine).




Bissau - Vista aérea do Liceu Honório Barreto (fotografado por volta de 1960)

A região de Casamança, hoje território senegalês e talvez a região mais rica daquele país pertencia então à Guiné. Apesar dos esforços pessoais, avisos e apelos feitos por Honório Barreto às autoridades portuguesas, inércia, displicência e hábitos herdados da escravatura, acabaram por determinar a entrega à França, sem consternação e de uma forma vassala e feudatária, da região hoje mais rica do Senegal.

Não escamoteando a sua origem marcadamente nativa, Honório Barreto bateu-se, assumidamente e de forma ímpar, pelo Império português, assumindo postura de grande estadista o que lhe valeu honrarias e condecorações, considerando-se ele próprio como um português da Guiné. Em 1853 cobriu-se de glória na grande sublevação da etnia dos papeis de Bissau, tal como, em 1856, na campanha contra os nagos.




Em cima: A exemplo de outras figuras históricas, também Honório Barreto deu lugar à emissão de moeda com a sua efigie, neste caso as notas de mil escudos (1000 «pesos») do Banco Nacional Ultramarino, em 30 de Abril de 1964, de acordo com os Decretos-Lei 39221 e 44891. Em baixo: Selo comemorativo do centenário da sua morte



Promovido a Tenente-Coronel de Artilharia de segunda linha, foi também galardoado com o grau de Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada. Só muito mais tarde, aquele cargo passou a denominar-se de Governador, honra que lhe foi atribuída no ano da sua morte, ocorrida em 26.4.1859.




A homenagem do Governo Português na lápide fúnebre que encima a sua campa

Fazendo parte do Dispositivo Naval da Marinha, sempre por curtos períodos, esteve ali estacionada por diversas vezes a corveta «Honório Barreto» – F 485. Naquele território terá desempenhado missões de 03Ago/17Ago, 13Set/01Out e 28Out/13Nov de 1973, 23Jan/04Fev e 04Jul/24Jul de 1974.




Em cima: A corveta «Honório Barreto» fundeada frente ao cais de Bissau em 1974 e, em baixo, a navegar em 1982



Não há conhecimento de que algum oficial da Reserva Naval tenha pertencido à guarnição da corveta «Honório Barreto».



Após o final da guerra, a República da Guiné-Bissau sofreu das normais vicissitudes resultantes da alteração de regimes políticos por via dos conflitos armados, e foram vários, com adaptação da sociedade civil a transformações sociais profundas, marcadas pela necessidade de eliminar quaisquer vestígios físicos, históricos ou arquitectónicos, nascidos durante a vigência ou pela mão de outro regime anterior considerado hostil.

Lá, também como cá, ou em qualquer outro local de convulsões sociais, a memória histórica não é susceptível de ser apagada por mera vontade de momento, mesmo que compreensivelmente alicerçada em recentes feridas de guerra, abertas de ambos os lados e ainda por sarar.




Em Vila Cacheu, 2007/2008 - Nestes dois anos, no exterior e no interior da Fortaleza, respectivamente, imagens do busto de «Honório Barreto», parte do monumento desmantelado

Sobreviveram pessoas, relatos, documentação e registos que darão, em devido tempo, lugar a pesquisa e investigação, cabendo a sociólogos e historiadores a construção de uma História dinâmica, sem hermetismos autocráticos




Fontes:
Texto do autor do blogue, compilado a partir de http://historiaguine.com.sapo.pt/; Setenta e Cinco Anos no Mar, 8.º Vol, 1993, Comissão Cultural da Marinha; http://mecckwamenkrumah.blogspot.com/; fotos de Dr. Carlos Silva (Furriel Mil, CCaç 2548) , Bilhetes Postais n.º 129/130, Colecção Guiné Portuguesa - Foto-Serra, Bissau; Imprensa Nacional, Casa da Moeda; cortesia do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, Arquivo Histórico Ultramarino, http://actd.iict.pt/; Revista da Armada; http://www.coins-and-banknotes.com/Banknotes-World/World-Banknotes/Portuguese-Guinea/Portuguese-Guinea-Honorio-Barreto-at-right-cleaned-and-prep-43a-1964-F-1000.html; http://img15.imageshack.us/i/gui0620a.jpg/.


mls

segunda-feira, 26 de março de 2018

21.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, Ago1972


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 14 de Setembro de 2010)



Listagem completa do 21.º CFORN.




Escola Naval – Juramento de Bandeira do 21.º CFORN.


Foi o segundo curso realizado no ano de 1972 que, a exemplo de anos anteriores foi assinalado pela incorporação de dois cursos de formação de oficiais da Reserva Naval.

O 21.º CFORN foi alistado em 31 de Agosto de 1972 e concluiu-se a 25 de Abril de 1973. Foram incorporados 93 cadetes assim distribuídos pelas várias classes: 23 cadetes na classe de Marinha, 4 cadetes da classe de Médicos Navais, 6 cadetes na classe de Engenheiros Maquinistas Navais, 28 cadetes na classe de Administração Naval, 31 cadetes na classe de Fuzileiros e 1 cadete na classe de Técnicos Especialistas.




A cerimónia de imposição das boinas aos novos fuzileiros

Comandava a Escola Naval o Contra-Almirante Pedro Fragoso de Matos que, em 11 de Outubro de 1972, foi substituído no cargo pelo Contra-Almirante José Augusto Barahona Fernandes.




O Contra-Almirante Pedro Fragoso de Matos, Comandante da Escola Naval e o Contra-Almirante José Augusto Barahona Fernandes que o substituiu no cargo.

Foi Director de Instrução o Capitão de Mar e Guerra Eugénio Eduardo da Silva Gameiro.




Capitão de Mar-e-Guerra Eugénio Eduardo da Silva Gameiro.

No final do período de instrução, o Prémio “Reserva Naval” foi entregue ao cadete da classe de Marinha, Alberto Manuel Carneiro Sereno. Este prémio destinava¬-se a galardoar o aluno com classificação mais elevada no conjunto da frequência escolar e da apreciação de carácter militar.




O cadete RN Alberto Manuel Carneiro Sereno, Prémio Reserva Naval

Durante o ano de 1972, para a prossecução do plano de modernização da Marinha, conjuntamente com a necessidade de reforçar os meios navais empenhados na Guerra do Ultramar, foram aumentados ao efectivo dos navios da Armada a LF «Sabre», o navio balizador «Schultz Xavier», o navio-patrulha «Zambeze» e o navio hidrográfico «Almeida Carvalho». Em 1973, vieram ainda reforçar aquele dispositivo os navios-patrulha «Limpopo» e «Save».



O navio hidrográfico «Almeida Carvalho»

No decorrer do mesmo ano de 1972, foram abatidos ao efectivo as fragatas «Álvares Cabral» e «D. Francisco de Almeida» e as LFP «Canopus», LFP «Deneb» e LFP «Algol» e, em 1973, seguiram idêntico destino a corveta «Cacheu», o draga-minas «Pico» e a fragata «Vasco da Gama».

Muitos oficiais da Reserva Naval desempenharam missões e viriam a fazê-lo nestes navios, quer nos entretanto abatidos quer nos aumentados ao efectivo, todos eles tendo representando um papel relevante na História da Reserva Naval.




Em cima: Carlos Manuel Pereira da Silva – LFP «Antares», Carlos Alberto de Magalhães Oliveira – LFP «Fomalhaut» e Carlos Eduardo Campos Valgode – LFP «Mercúrio»

Em baixo: José Carlos dos Santos Borges – «LFP “Procion» e José Manuel Miranda Themudo Barata – LFP «Bellatrix»




Houve uma normal mobilização dos elementos deste curso como Comandantes, Oficiais Imediatos de navios, Oficiais de Guarnição, integrando Companhias e Destacamentos de Fuzileiros ou Unidades e Serviços em terra. No entanto, na classe de Fuzileiros aconteceu pela primeira vez que a mobilização não foi maciça, como vinha acontecendo até então. Foram designados para prestar serviço em África, ou Continente e Ilhas, os seguintes oficiais:



Guiné (17 Oficiais):

2TEN RN António Manuel Souto Lopes da Graça, LFG «Orion»;
2TEN RN João Manuel da Silva Cunha, LFG «Dragão»;
2TEN RN José Carlos dos Santos Borges, LFP «Procion»;
2TEN RN José Manuel Miranda Temudo Barata, LFP «Bellatrix»;
2TEN RN José António Barbot Veiga de Faria, LDG «Montante»;
2TEN RN Manuel Jorge, LFG «Hidra»;
2TEN RN Manuel Tomás Fontaínhas Pimenta de Castro, Comando de Defesa Marítima da Guiné;
2TEN EMQ RN Manuel de Vilhena Veludo, Comando de Defesa Marítima da Guiné;
2TEN FZE RN Albano Matos Fernandes Pereira, DFE 5;
2TEN FZE RN Fernando Manuel Barros da Cunha, DFE 4;
2TEN FZE RN Victor Manuel Moreno Albino Calado Capela, DFE 4;
2TEN FZ RN João Manuel do Rego Botelho Parreira, CF 5;
2TEN FZ RN José Fernandes Lomba, CF 5;
2TEN FZE RN João Luís Pamplona de Bettencourt Rodrigues, DFE 12;
2TEN FZE RN Joaquim Manuel Pereira Branco de Mascarenhas, DFE 22;
2TEN FZE RN José Joaquim Caldeira Marques Monteiro de Macedo, DFE 21;
2TEN FZ RN Vasco António Reinhardt Machado Monteiro, CF 8;

Em Abril de 1972 o PAIGC volta a flagelar, desta vez a cidade de Bolama, durante cerca de dez minutos com foguetões de 122 mm.

A partir de Julho foi lançada uma grande operação na zona do Cubisseco e Pobreza com a finalidade de ali instalar uma base que viria a ser denominada como “Tabanca Nova da Armada”. A região passou a ser sistematicamente flagelada, os resultados obtidos não surtiram os efeitos desejados e o aquartelamento foi desactivado em Novembro.

Numa entrevista ao jornal do Cairo, Amílcar Cabral declara que “num futuro próximo anunciaria a criação de um novo Estado e que a luta pela libertação nacional do povo da Guiné-Bissau era amplamente apoiada pela opinião pública progressista mundial”. Afirmou também que o PAIGC fora reconhecido como representante legítimo do povo da Guiné-Bissau por muitas organizações internacionais.

Pelas 22:30 horas do dia 20 de Janeiro de 1973, Amílcar Cabral é assassinado à porta da sua residência em Conacry, num crime atribuído “convenientemente” á PIDE/DGS por uma opinião pública internacional acicatada pelos países africanos. Aristides Pereira assume funções como chefe interino do PAIGC.

No mês de Março surgem no teatro de operações da Guiné os mísseis terra-ar Strella os quais, tendo como alvo as aeronaves, surtem um tremendo efeito negativo na FAP e, consequentemente, nas operações militares.




A fragata Comandante João Belo a navegar em águas oceânicas

A 25 de Março foi abatido um Fiat G-91 no Cantanhês, pilotado pelo TEN Miguel Cardoso Pessoa que se ejectou com sucesso e, três dias depois, na região de Madina do Boé uma parelha de Fiats G-91 é atacada com arma desconhecida. Um dos pilotos, 2º Comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné, TCOR Fernando Almeida Brito ao picar para tentar identificar o alvo foi atingido, ficando desfeito e morrendo o piloto. O seu asa conseguiu regressar à base.

Na primeira semana de Abril um T6 é abatido por um míssil Strella e despenhou-se causando a morte ao piloto. No dia 6 é novamente abatido um DO 27 onde o Major Mariz Martins, comandante do COP 3, efectuava um reconhecimento visual (RVIS), não havendo sobreviventes.

Em 8 de Maio é iniciada pelo PAIGC uma violenta ofensiva contra Guidage, junto à fronteira do Senegal. Em 11 de Maio grupos de combate dos DFE 1 e DFE 4 são enviados para o reforço da defesa daquele aquartelamento, sofrendo uma baixa no dia 13.

No dia 18 de Maio, comandado por João Bernardo “Nino” Vieira o inimigo desencadeia uma violenta ofensiva contra Guileje, localidade no sul da Guiné que, situada num ponto vital da rota de abastecimento do PAIGC, sem acesso por via fluvial, ficava completamente isolada.




INAB – Entrada das Instalações Navais de Bissau.

De 18 a 22 de Julho decorre o 2.º Congreso do PAIGC que fez a revisão geral dos estatutos elegendo Aristides Pereira como secretário-geral afirmando ser intenção do PAIGC proclamar a independência, constituir um governo e criar estruturas administrativas.

Em 6 de Agosto, o General Spínola regressa à Metrópole e é exonerado do seu Comando, sendo substituído a 28 do mesmo mês pelo general Bettencourt Rodrigues como Governador-Geral e Comandante-Chefe.

No mês de Outubro, mais uma vez os aliados americanos jogam a sua cartada no cenário internacional. O Senado proíbe a Administração de conceder a Portugal qualquer ajuda que permita a manutençaõp do “Regime Colonial”. Por sua vez, nesse mesmo mês, o Governo Português concede autorização aos EUA para utilizarem a Base das Lajes, nos Açores, como escala de apoio a Israel na guerra do Yom Kippur.

Em Dezembro já a confiança nos aéreos se tinha restabelecido e, conhecida a estratégia a utilizar para minimizar o efeito dos mísseis Strella, recomeçaram os voos com alguma normalidade, embora com redobrados cuidados.




Cabo Verde (5 Oficiais):

2TEN MN RN Luís André Liebermann da Costa e Silva, Pelotão n.º 1 de Fuzileiros;
2TEN RN Cândido José Dominguez dos Santos, Fragata «Comandante João Belo»;
2TEN RN José Manuel Gonçalves da Costa, Fragata «Comandante João Belo»;
2TEN FZ RN José António Caiola Lacerda de Almeida, Pelotão de Fuzileiros n.º 2;
2TEN FZ RN Leonel Alexandre Tomás Cardoso, Pelotão de Fuzileiros n.º 1;




1970 - Comando Naval de Cabo Verde - Capitania do Porto de S. Vicente



Angola (16 Oficiais):

2TEN RN Alberto Manuel Carneiro Sereno, Comando Naval de Angola;
2TEN MN RN Daniel Siragusa Leal, Comando Naval de Angola;
2TEN AN RN António José Rebelo de Andrade Cabral, Comando Naval de Angola;
2TEN AN RN Eurico Pimenta de Brito, Comando Naval de Angola;
2TEN AN RN Manuel Costa Pereira, Comando Naval de Angola;
2TEN RN Carlos Manuel Pereira da Silva, LFP «Antares»;
2TEN RN Carlos Alberto de Magalhães Oliveira, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN Fernando Manuel Barreiros Antunes, LFG «Pégaso»;
2TEN RN Henrique Joaquim Gomes, navio-patrulha «Cunene”;
2TEN RN Luís Manuel Abreu da Cunha e Melo, LDG «Alabarda»;
2TEN RN Manuel Eduardo da Costa e Almeida Vasques, navio-patrulha «Mandovi»;
2TEN FZE RN Jorge Manuel de Pina Paiva e Pona Franco, DFE 6;
2TEN FZE RN José António Ruivo, DFE 6;
2TEN FZ RN Mário Norberto Valente de Pinho, CF 1;
2TEN FZ RN Rui Manuel Rodrigues Simões, CF 3;
2TEN FZ RN Victor Henrique Louro de Sá, CF 3;

A República do Congo continuava a apoiar o movimento político-subversivo FNLA-GRAE com larga visibilidade exterior. Por ocasião de uma visita do presidente Mobutu foi salientada a contribuição congolesa e senegalesa para «extirpar da terra africana todas as práticas aviltantes e de sujeição do homem africano.

A Zâmbia mantinha com Portugal um tom político de fria hostilidade, acusando o nosso país de estar a impor um bloqueio ao escoamento das suas exportações através do porto da Beira. Contrariando as declarações de intenção de uma política de boa vizinhança e de não ingerência interna nos assuntos de outras nações, o governo da Kaunda apoia os movimentos subversivos do MPLA e também da UNITA.




Navio-patrulha «Cunene»

Em Dezembro de 1972 a situação internacional era caracterizada por um evidente esforço por parte dos países africanos no sentido de alcançarem um maior progresso geral, recebendo para o efeito auxílio estrangeiro tanto do bloco ocidental como do bloco comunista, o que permitia aos países mais industrializados (França, Grã-Bretanha, Estados Unidos da América, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e República Popular da China) manter intacto o peso da sua influência em África.

No campo económico os países africanos continuavam dependentes não só das exportações das suas matérias-primas para os países industrializados mas também da importação de capitais e equipamentos, essenciais para alcançarem uma relativa independência económica.

A unidade africana revelava então uma apreciável coesão, mostrando-se unânime quer em condenar Portugal, Rodésia e República da África do Sul quer em aprovar resoluções com vista a provocar o seu isolamento no contexto internacional.

Entretanto, o dispositivo operacional instalado no Leste de Angola fora reorganizado e reforçado, estando constituídos os Destacamentos das Forças de Marinha no Rio Cuíto (baseado em Vila Nova da Armada), no Rio Cuando, no Rio Zambeze e no Rio Lungué-Bungo, áreas onde desde 1965 actuavam unidades de fuzileiros.

As acções armadas inimigas no teatro de Angola tinham vindo a diminuir francamente no ano de 1972 em relação ao ano anterior, salvo ligeiro crescimento no recurso à colocação de engenhos explosivos. No enclave de Cabinda a situação encontrava-se calma sem iniciativa de acções bélicas, o mesmo se passando tanto no norte como na frente leste. Somente o Cuango revelava ligeiro aumento de actividade.




Navio-patrulha «Mandovi»

O dia 2 de Junho de 1973 ficou assinalado por um brutal incidente que ficou assinalado como um trágico marco da guerra dos Fuzileiros, em geral, e da Reserva Naval, em particular.

Uma pequena coluna de duas viaturas que se deslocara do Chilombo à Lumbala para ir buscar correio, foi violentamente emboscada num percurso onde não havia histórico de actividades hostis.

A acção causou 3 mortos e um ferido aos fuzileiros que se encontrava no Chilombo. Um dos mortos, Pertencendo ao Pelotão de Apoio da CF 1, o STEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, oficial da Reserva Naval, do 18.º CFORN, foi o único oficial da Marinha de Guerra morto em combate durante os 13 anos de guerra.

A ofensiva internacional contra Portugal e os países do sul de África, acentuava-se no final de 1973. O encerramento da 28.ª sessão da Assembleia Geral da ONU marcou pela posição anti-portuguesa, ao aceitar a alegada independência da Guiné como acto consumado e indiscutível, definindo Portugal como potência ocupante e ilegal.



Moçambique (16 Oficiais):

2TEN RN Carlos Eduardo Campos Valgode na LFP «Mercúrio»;
2TEN RN José Belmiro Rodrigues Ferreira, Comando Naval de Moçambique;
2TEN RN Mário Jorge de Oliveira Pinho, Comando Naval de Moçambique;
2TEN EMQ RN José Manuel Gouveia da Costa Neves, Comando Naval de Moçambique;
2TEN RN Manuel Joaquim Couto Alves dos Reis;
2TEN RN Mário de Sousa Dias Fernandez;
2TEN MN RN Manuel Joaquim Teodósio Amaro, CDM Portos do Lago Niassa;
2TEN AN RN Tito Ferreira de Carvalho, CDM Portos do Lago Niassa;
2TEN FZ RN Avelino Pinto da Costa, CDM Portos do Lago Niassa;
2TEN AN RN José Manuel Delgado Félix Ribeiro, CDM dos Portos do Zambeze;
2TEN FZ RN Jorge de Oliveira Cardoso Fernandes, CF 7;
2TEN FZ RN José Amaro Martins Carmona e Costa, CF 7;
2TEN FZ RN Nuno Eça de Queiroz Cabral, CF 7;
2TEN FZ RN Luís Mário Pais Paiva de Andrade, CF 11;
2TEN FZE RN Luís Alberto Pessoa da Fonseca e Castro, DFE 8;
2TEN FZE RN Manuel Kendall Nicolau de Almeida, DFE 3;

O cenário internacional sofre entretanto significativa evolução: a Inglaterra assina um acordo que concede a independência à sua antiga colónia da Rodésia, permitindo no entanto a continuação da supremacia branca no país liderado por Ian Smith, facto que foi fortemente contestado pelos “nacionalistas” negros da Rodésia e de todo o Continente africano.

No entanto, a Grã-Bretanha continua a manter uma fragata no Canal de Moçambique, apoiada por um navio auxiliar, controlando o acesso aos portos da Beira.

Enquanto isso, os países originários das antigas colónias europeias mantêm forte investida junto da opinião pública mundial contra a presença portuguesa em África e fazem aprovar na ONU em 28 de Setembro de 1972 uma moção que propõe a admissão de delegados de organizações terroristas como observadores da Comissão de Descolonização. Portugal protesta, afirmando não participar nos trabalhos da ONU onde estivessem presentes representantes daquelas organizações. Posição idêntica é tomada pela África do Sul.




A LFP «Mercúrio» atracada na Base Naval de Metangula, no Lago Niassa

Logo no início de 1973 a ONU anunciou que iria realizar em Oslo, entre 9 e 14 de Abril, uma conferência internacional sobre o colonialismo e ao apartheid, no qual no qual iriam participar ale de representantes dos órgãos pemanentes daquela organização, representantes de nove movimentos de libertação africanos. A tal anúncio foi dada enorme relevância pela imprensa mundial. Simultaneamente, grupos anti-colonialistas e contra o apartheid preparavam uma campanha com reuniões na Alemanha, Noruega, Holanda, Suiça e ainda em Londres.

No estrangeiro, continuavam a levantar-se cada vez mais vozes contra Portugal, quer por parte dos países quer mesmo por organizações não governamentais. Em Março, foi a Organização Internacional de Aeronáutica Civil que aprovou, em sessão relaizada na sua sede em Nova Iorque, uma moção que afastava Portugal das suas reuniões. A aprovação foi obtida por maioria com votos favoráveis dos países africanos e asiáticos, e os votos contrários dos EUA, Nova Zelândia e a maior parte dos países europeus. Por esta altura, a Dinamarca, Finlândia e Suécia sugeriram a colocação de uma força militar à disposição da ONU, pronta a deslocar-se para qualquer parte do mundo.

Em Moçambique fora também constituído o Comando da Defesa Marítima do Zambeze, para apoio ao dispositivo militar naval em operações na bacia do Zambeze e em especial na região de Tete.



Continente e Ilhas (35 Oficiais):

2TEN RN Armando Henriques Prazeres Machado, Escola Naval;
2TEN AN RN José Alberto Taveira Carvalho Marques, Escola Naval;
2TEN RN Rui Pedro de Sousa do Prado, Comando Naval dos Açores;
2TEN MN RN Manuel Barroso Silvério Marques, Base Naval de Lisboa;
2TEN EMQ RN José Eduardo de Jesus Marques, draga-minas «Lajes»;
2TEN EMQ RN José Maria Albuquerque Figueiredo e Castro, draga-minas «Lagoa»;
2TEN EMQ RN José Manuel de Sampaio Cruz Filipe, fragata «Pêro Escobar»;
2TEN EMQ RN Martiniano Nunes Gonçalves, Fábrica Nacional de Cordoaria;
2TEN AN RN Miguel António Santos Ferreira de Almeida, Fábrica Nacional de Cordoaria;
2TEN AN RN António Francisco Espinho Romão, Direcção Geral Serviços de Fomento Marítimo;
2TEN AN RN Armando Augusto Dias de Morais e Castro, Grupo N.º 1 de Escolas da Armada;
2TEN AN RN José Maria Pereira Brandão de Brito, Grupo N.º 1 de Escolas da Armada;
2TEN FZ RN António Manuel Henriques Martins Tavares, Grupo N.º 1 de Escolas da Armada;
2TEN AN RN Augusto Rodrigues de Castro Ribeiro, Direcção do Serviço de Pessoal – 2.ª Rep.;
2TEN AN RN Joaquim António Pinto de Matos na Direcção do Serviço de Pessoal – 2.ª Rep.;
2TEN AN RN Augusto Bento Pereira da Silva, Superintendência dos Serviços Financeiros;
2TEN AN RN Fernando José Ramos e Costa Abecassis, Superintendência dos Serviços Financeiros;
2TEN AN RN João Manuel Rodrigues Pestana Teixeira, Superintendência dos Serviços Financeiros;
2TEN AN RN Luís Miguel Portela Morais, Superintendência dos Serviços Financeiros;
2TEN AN RN Carlos Rodolfo Botelheiro Elias, DSEC;
2TEN AN RN Carlos Marcel Pereira Figueira, Direcção das Construções Navais;
2TEN AN RN Rui Afonso Galvão Mexia de Almeida Fernandes, Direcção das Construções Navais;
2TEN AN RN Joaquim Daniel Costa Neves, CA da Administração Central de Marinha;
2TEN RN Jorge Manuel Alves de Moura Calheiros, CA da Administração Central de Marinha;
2TEN AN RN José Carlos Alfaia Pinto Pereira, CA da Administração Central de Marinha;
2TEN AN RN José Melro Félix, Direcção do Serviço de Abastecimento;
2TEN AN RN Manuel Alberto Ramos Maçães, Direcção do Serviço de Abastecimento;
2TEN AN RN Manuel Antunes Pinto da Cruz, Escola de Fuzileiros;
2TEN FZ RN António Francisco Caseiro Marques, Escola de Fuzileiros;
2TEN FZ RN Mário Augusto Marreiros das Chagas, Escola de Fuzileiros;
2TEN AN RN Manuel Sousa Fernandes de Meireles,Instituto Hidrográfico;
2TEN TE RN Alberto Catarino Mateus, Instituto Hidrográfico;
2TEN AN RN Manuel Ferro da Silva Meneses, Estado-Maior da Armada;
2TEN AN RN Raúl Jorge Correia Esteves, Estado-Maior da Armada;
2TEN FZ RN José António da Silva Gomes Lima, Grupo N.º 2 de Escolas da Armada;

Não foi possível determinar o paradeiro correcto dos seguintes 4 Oficiais:

2TEN FZ RN António Tito Fontoura de Lencastre (Pelotão n.º 7 de Fuzileiros);
2TEN FZ RN Eduardo Nuno Ferreira Morgado (Pelotão n.º 13 de Fuzileiros);
2TEN FZ RN José Rocha da Silva (Pelotão n.º 12 de Fuzileiros);
2TEN FZ RN Manuel Severino Gaspar de Sousa Dias (Pelotão n.º 14 de Fuzileiros);




Navio-patrulha «Zambeze»

O 21.º CFORN, a partir de 25 de Abril de 1974, acompanhou todo o processo que se desenvolveu nos territórios ultramarinos, inclusivé porque muitos dos seus elementos eram Comandantes de Unidades Navais ou enquadravam Unidades de Fuzileiros.

Os oficiais pertencentes ao 21.º CFORN começaram a ser licenciados a partir de 11 de Outubro de 1974. Ingressaram nos Quadros Permanentes:
2TEN FZE RN Jorge Manuel de Pina Paiva e Pona Franco;
2TEN FZE RN Albano Matos Fernandes Pereira;
2TEN FZ RN Manuel Severino Gaspar de Sousa Dias;
2TEN FZ RN Mário Augusto Marreiros das Chagas;
2TEN FZE RN José António Ruivo. Este último oficial desempenhou as funções de Comandante da Escola de Fuzileiros no posto de Capitão de Mar-e-Guerra.





Fontes:
Texto do autor do blogue com a colaboração do CMG José António Ruivo do 21.º CFORN, compilado a partir do Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios & Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Fuzileiros – Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974, Luis Sanches de Baêna, 2006; Arquivo de Marinha; Revista da Armada; fotos do 21.º CFORN por cedência da revista da Armada; outras fotos de arquivo do autor do blogue com cedências de origens diversas;


mls

domingo, 18 de março de 2018

Bissau - Memória de «Nuno Tristão»


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 1 de Dezembro de 2010)


Nuno Tristão – Primeiro navegador europeu a atingir a actual Guiné-Bissau


No seguimento do anterior artigo publicado, evocamos agora Nuno Tristão, outra figura ímpar na história dos descobrimentos e da exploração da costa africana, uma vez ter sido o primeiro navegador europeu conhecido a atingir o território da actual Guiné-Bissau.




Na foto acima, em Bissau (1966), a estátua de Nuno Tristão, implantada no início da então Av. da República, de costas para a Praça do Império e para o Palácio do Governador, virada para o cais do Pijiguiti, estuário do Geba e para o Mar.

Sempre o Mar!...

Na perpendicular fica a Av. Marginal sendo que, para quem está de costas para o cais e para o rio, terá para o lado direito a Ponte-Cais, Fortaleza de S. José da Amura e ex-Pelicano e, para o lado esquerdo, as Instalações Navais de Bissau (INAB). Era, como outros, um quase obrigatório percurso na zona comercial em áreas adjacentes ao porto.

À esquerda, é visível o edifício da Casa Gouveia, hoje Armazéns do Povo. À direita, a parte arborizada corresponde à esplanada do Café Bento também vulgarmente conhecida como “5.ª Rep”. Quem se não lembra deste “pseudónimo”? Avistam-se ainda as duas torres da Sé de Bissau, ex-libris da cidade.






Numa abordagem de simples retalhos, alijando alargados considerandos próprios de historiadores, terá sentido recordar alguns pormenores do dia-a-dia da época. Era bem o caso da moeda corrente, o escudo, cuja representação facial das notas de cinquenta e cem escudos ostentavam a efígie daquele navegador.






Na época, os escudos cediam a denominação a “pesos”, passando a notas de cinquenta ou cem pesos. Quem não recorda, na linguagem corrente, em vez de “muito caro” ouvir “manga de pesos” ou “manga de patacão”?




Também aqui, no Continente, em 1987, foi emitida uma moeda comemorativa com o valor facial de cem escudos, na tiragem de um milhão de exemplares, da autoria dos escultores Isabel Carriço e Fernando Branco. Evocando Nuno Tristão, naturalmente.




Fazendo parte do Dispositivo Naval da Marinha, algumas vezes por curtos períodos, esteve ali estacionada por diversas vezes a fragata «Nuno Tristão» - F 332, da mesma classe da fragata «Diogo Gomes».

Naquele território terá desempenhado missões de 24Out62 a 11Dez62 e 09Dez64 a 08Abr66. No decorrer do primeiro trimestre de 1964 apoiou e participou na que foi considerada a maior acção militar de toda a Guerra do Ultramar, a Operação <“Tridente”. Não há conhecimento de que algum oficial da Reserva Naval tenha pertencido à guarnição da fragata «Nuno Tristão».





Guiné - A fragata «Nuno Tristão» atracada ao NH «Pedro Nunes»




Nuno Tristão(? — costa de África, 1446?) foi um navegador português do século XV, explorador e mercador de escravos na costa ocidental africana. Foi o primeiro europeu que se sabe ter atingido o território da actual Guiné Bissau, iniciando entre os portugueses e os povos daquela região um relacionamento comercial e colonial que se prolongaria até 1974.
Em 1441, Nuno Tristão e Antão Gonçalves foram enviados pelo Infante D. Henrique com a missão de explorar a costa ocidental da África a sul do Cabo Branco. Integrando um mouro que actuava como intérprete, Tristão, a expedição liderada por Nuno Tristão ultrapassou aquele Cabo, à altura o ponto mais meridional atingido pelos exploradores europeus, e durante dois anos permaneceu nas águas do noroeste africano, avançando até ao Golfo de Arguim, na actual costa da Mauritânia, onde adquiriram 28 escravos.
Em 1445 navegou até à região da Guiné, encontrando uma terra, que, em contraste com as regiões desérticas a norte, existiam muitas palmeiras e outras árvores e os campos pareciam férteis. Em 1446 Nuno Tristão desembarcou nas proximidades da actual cidade de Bissau, iniciando uma presença portuguesa na região que se prolongaria por quase 500 anos.
Nuno Tristão foi morto em data desconhecida, provavelmente no ano de 1446, durante um assalto destinado à captura de escravos, ocorrido na costa africana, cerca de 320 km a sul do Cabo Verde.





Após o final da guerra, a república da Guiné-Bissau sofreu das normais vicissitudes resultantes da alteração de regimes políticos por via dos conflitos armados, e foram vários, com adaptação da sociedade civil a transformações sociais profundas, marcadas pela necessidade de eliminar quaisquer vestígios físicos, históricos ou arquitectónicos, nascidos durante a vigência ou pela mão de outro regime anterior considerado hostil.




2007 - Em Vila Cacheu, a estátua de Nuno Tristão abandonada no exterior do forte

Lá, também como cá, ou em qualquer outro local de convulsões sociais, a memória histórica não é susceptível de ser apagada por mera vontade de momento, mesmo que compreensivelmente alicerçada em recentes feridas de guerra, abertas de ambos os lados e ainda por sarar.



2008 - Em Vila Cacheu, desta feita dentro do forte, Nuno Tristão parece necessitar de apoio, encostado às ameias

Sobreviveram pessoas, relatos, documentação e registos que darão, em devido tempo, lugar a pesquisa e investigação, cabendo a sociólogos e historiadores a construção de uma História dinâmica, sem hermetismos autocráticos




Fontes:
Texto do autor do blogue; Bibliografia do Dicionário de Navios & relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Fotos do Arquivo de Marinha, Dr. Carlos Silva (ex-Furriel Mil, CCaç 2548) e Foto-Serra, Bissau; Imprensa Nacional, Casa da Moeda.


mls

quinta-feira, 15 de março de 2018

Bissau - Memória de «Diogo Gomes»


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 29 de Novembro de 2010)


Diogo Gomes - A incontornável memória de um navegador




Bissau, 1967 - Em cima, o monumento a Diogo Gomes, no enfiamento da ponte-cais, ao lado do CDMG e, em baixo, o mesmo monumento fotografado de uma outra perspectiva, e em tempo anterior (1966)



Diogo Gomes foi uma figura incontornável na epopeia das campanhas e descobrimentos portugueses em África. Evocado dessa simples forma, sempre teve representado na monumentalidade de Bissau, com expressiva visibilidade no enfiamento da ponte-cais da cidade, posicionado lateralmente junto ao edifício do Comando da Defesa Marítima da Guiné – antigo e actual Edifício das Alfândegas.

Ao longo dos anos, integrou a memória histórica de populações daquele território - actual República da Guiné-Bissau - e de quem ali esteve como militar em qualquer um dos ramos das Forças Armadas, enquanto durou o conflito de 1962 a 1975, toda a navegação comercial e de cabotagem, batelões e pessoal da estiva, transportes de tropas, simples passageiros em trânsito ou veraneantes.

Bastava, para issso, a habitual passeata ribeirinha na busca da proximidade portuária junto ao rio Geba, zona comercial na proximidade da Av. Marginal, ponte-cais de Bissau, cais do Pijiguiti, instalações da Alfândega ou Forte da Amura, especialmente para a Marinha que ali desenvolvia toda a sua actividade operacional no Edifício do Comando, Guarnições de Unidades Navais, Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros, Instalações Navais de Bissau (INAB) e Serviço de Assistência Oficinal (SAO).




Imagens da fragata «Diogo Gomes» a navegar



Da própria Marinha, estacionou naquele teatro por três vezes, em comissão, a fragata com o nome do navegador, F 331 - «Diogo Gomes». A primeira em 01Fev62 durante cerca de oito meses com intervalo de um mês em Cabo Verde, a segunda em 1963 tendo ali permanecido dois meses e a terceira em Fevereiro/Março de 1966, tendo visitado a Guiné e Cabo Verde.

Naquele navio prestou serviço o 2TEN RN Luis Filipe do Cruzeiro Gonçalves Penedo, do 5.º CEORN, o único oficial da Reserva Naval de que há conhecimento confirmado ter pertencido à guarnição daquela unidade naval, desde 12Jun63 e, suposto, até ao final do tempo de serviço em 1965.




Diogo Gomes (14?? – c. 1502), também referido como Diogo Gomes de Sintra, foi um navegador e explorador português.

Biografia

Foi moço de câmara do Infante D. Henrique, por ele enviado em expedições de descobrimento à costa ocidental da África. Em 1440 foi nomeado colector das alfândegas reais. Das viagens que efectuou, participou, com Gil Eanes e Lançarote de Freitas da expedição militar de 1445 à ilha de Tider, perto do cabo Branco.
Nomeado escrivão da carreagem real (12 de Junho de 1451), seguiu prestando serviços em simultâneo tanto ao Infante quanto à Coroa.
Como referiu Teixeira da Mota, Diogo Gomes navegou em 1456 até à embocadura do rio Grande, canal do Geba. No regresso subiu o rio Gâmbia até Cantor, em busca de informações sobre o comércio do ouro e das rotas que ligavam as regiões auríferas do Senegal, do Alto Níger e do entreposto comercial de Tombuctu às rotas saarianas que desembocavam no litoral marroquino.
Durante esta expedição, Diogo Gomes capitaneava uma esquadra de três navios. Possivelmente no seu regresso tocou o arquipélago de Cabo Verde, cujo descobrimento reclama para si, na companhia do italiano António da Noli. Ainda antes da morte do Infante D. Henrique (1460), regressou à costa africana onde explorou o rio de Barbacins (Salum).
Após o falecimento do Infante estreitou-se a sua ligação com a Corte, adquirindo o título de cavaleiro. Em 1463 exercia o cargo de escudeiro de Afonso V de Portugal. Exerceu o cargo de almoxarife de Sintra, de 28 de Outubro de 1459 até 1480, tendo exercido ainda as de juiz dos "Feitos das Coutadas, das Caças e Montarias" de Sintra (25 de Março de 1466) cargo que acumulou com o de juiz das Sisas da vila de Colares (confirmado em 5 de Março de 1482).
Embora não se saiba ao certo em que ano faleceu, existe o registo de um pagamento que a sua viúva fez pela sua alma, em 1502.

Nota:

Outros autores atribuem-lhe o descobrimento de uma das ilhas de Cabo Verde no dia de São Vicente (22 de Janeiro) em 1462. Na altura seria escudeiro do infante D. Fernando.







Estátua de Diogo Gomes, Praia, Cabo Verde (Autor - CorreiaPM).


Bibliografia:

MOTA, Avelino Teixeira da. "Diogo Gomes, Primeiro Grande Explorador do Gâmbia (1456)". in: Actas da 2ª Conferência Internacional dos Africanistas Ocidentais, Lisboa, 1950, pp. 309-317.
SINTRA, Diogo Gomes de. Descobrimento Primeiro da Guiné (estudo preliminar, edição crítica, tradução, notas e comentário de Aires A. Nascimento. Introdução histórica de Henrique Pinto Rema). Lisboa: Edições Colibri, 2002. 174 pp.





Após o final da guerra, a república da Guiné-Bissau sofreu das normais vicissitudes resultantes da alteração de regimes políticos por via dos conflitos armados, e foram vários, com adaptação da sociedade civil a transformações sociais profundas, marcadas pela necessidade de eliminar quaisquer vestígios físicos, históricos ou arquitectónicos, nascidos durante a vigência ou pela mão de outro regime anterior considerado hostil.




2007 - Em Vila Cacheu, a estátua de Diogo Gomes abandonada no exterior do forte.

Lá, também como cá, ou em qualquer outro local de convulsões sociais, a memória histórica não é susceptível de ser apagada por mera vontade de momento, mesmo que compreensivelmente alicerçada em recentes feridas de guerra, abertas de ambos os lados e ainda por sarar.



2008 - Em Vila Cacheu, agora dentro do forte, Diogo Gomes parece agora contemplar um horizonte perdido no tempo.

Sobreviveram pessoas, relatos, documentação e registos que darão, em devido tempo, lugar a pesquisa e investigação, cabendo a sociólogos e historiadores a construção de uma História dinâmica, sem hermetismos autocráticos.



Fontes:
Texto do autor do blogue, compilado a partir de: Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Lista da Armada; fotos do Arquivo de Marinha, Carlos Fernando Dias Souto, Carlos Silva (ex-Furriel Mil, CCaç 2548), Postal 91 (Foto-Serra, Bissau).


mls

terça-feira, 13 de março de 2018

Guiné 1970/72, Fuzileiros e LDM - Lanchas de Desembarque Médias – Parte II


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 24 de Novembro de 2010)

Intimidades entre uma Companhia de Fuzileiros (CF 11) e as Lanchas de Desembarque Médias no teatro operacional da Guiné

Parte II

Os combóios de Catió

Exigiam cuidados redobrados. Recebido o ORDMOVE era certo e sabido que, vinte minutos depois de estudado, lá estava na sala do Estado-Maior a solicitar meia dúzia de botes e outros tantos motores na ponte-cais de Bissau.

Por uma vez, aconteceu que vinte minutos depois estava de novo a exigir mais seis botes e seis motores.

Os primeiros botes estavam todos furados e, quanto aos motores, não funcionou nenhum. Da segunda remessa alguns ainda foram devolvidos. Resultado final de seis botes novinhos em folha e também o mesmo número de motores novos. Funcionavam todos! Ainda hoje persiste a pergunta de porquê tão pouco cuidado nos meios essenciais para o cumprimento destas missões? No caso de surgirem problemas quem assumiria a responsabilidade?

É que aconteceu, num dos combóios, quando nos aprontávamos para carregar os nossos materiais logísticos, armas e mantimentos, encontrar cada LDM com uma BERLIET no “Poço”. Era impossível acomodarmo-nos e, pior ainda, defendermo-nos. Um salto ao Estado-Maior e uma explicação: “Tinha de as levar, porque tinha sido assumido o compromisso de as transportar até Catió, onde faziam muita falta”.

– “Ah, e quem assumiu o compromisso?”, depois de informado, solicitei apenas que fosse redigida uma declaração na qual quem tinha assumido o frete se responsabilizasse pela segurança do combóio. Como era evidente, aconteceu uma recusa.

– “Está a gozar comigo?”, informei que esperava, no Cais, que a situação fosse solucionada e retirei-me com o “Determina mais alguma coisa?” da praxe.




Guiné - Mapa da região de Catió

As BERLIET seguiram para Catió, realmente, mas a bordo de batelões. Para gáudio dos oficiais do Batalhão de Catió, informados de que o oficial do combóio se tinha recusado a levar as viaturas…

Que fé dá o relatório destes acontecimentos? “NIL” (nada ou zero). Ao quarto relatório devolvido, igual aos anteriores, informei que tinha percebido, finalmente, o que se desejava e inscrevi, em todos os items, a célebre “NIL”.

Mas os trabalhos não terminaram aqui. Dado que a partida foi atrasada cinco horas – às 16:00, soube depois, ainda no Estado-Maior alguém perguntava se sempre tinha saído ou não... - tivemos de fundear na Ponta dos Escravos, e fazermo-nos ao caminho, de manhã, duas horas mais cedo para o encontro com os meios aéreos de apoio, na foz do Cobade.




A Oerlikon, (para a fotografia), podendo distinguir-se, ao fundo, um dos T6 do apoio aos Comboios do Sul, a Catió e a Bedanda – mas a fotografia pretendia, mesmo, era apanhar o mosquito.

Mal habituados, poupava-lhes três quartos de hora no tempo de apoio, - por ser largo no seu curso inferior, o Cobade oferecia boas condiçoes de defesa e eu adiantava caminho -, os T6 questionaram o Estado-Maior sobre a razão de, desta vez, o apoio ter demorado o dobro do tempo do costume.




Em cima, escolta de botes aos combóios do sul, no rio Cagopere, afluente do Cobade que dá acesso ao porto interior de Catió, e, em baixo, aquele porto na baixa-mar



E lá vem nova chamada ao Estado-Maior:

“Porquê?”

– “Ah, estão equivocados, porque prestaram o apoio que tinham de prestar.”

– “Como?”

– “Muito fácil, a que horas o iniciaram e a que horas o ORDMOVE o previa?”

– “Olha…?!”

Mas, é claro, no relatório nada consta… Como podem os investigadores tirar conclusões correctas? Ficarão, sempre, pela aproximação...




Em cima, chegada a Catió. Podem também distinguir-se ainda o artilheiro e o "basookeiro", cada um no seu posto e, em baixo, descomprimindo




Rendição do Rendição do Batalhão de Catió

Neste combóio para sul participaram três LDM, houve um “rendez-vous” (encontro) com a LDG “Montante” na foz do rio Cumbijã, idas com escala e descarga de pessoal e material a Cabedú e, para montante, em Cufar.

Era especialmente impressionante a viagem ao aquartelamento de Cabedú localidade no rio Lade, afluente da margem esquerda do Cumbijã, quase junto à foz no extremo sul do Cantanhês, onde estava estacionado um pelotão do Batalhão, com um mais do que exíguo porto onde, na preia-mar, não era nítido o curso do braço de água.

Uma semana depois, novo rendez-vous com a LDG “Bombarda” na foz do Cobade. Em virtude da noite tempestuosa o encontro com aquela unidade naval foi atrasado duas horas.

Com o tempo de maré limitado, subi ao tombadilho da LDG "Bombarda". Dei, para grande surpresa minha, com um Tenente-Coronel e um Major, ambos ajoelhados a enrolar um dos clássicos colchões pneumáticos em uso na época.

Toquei no ombro do Senhor Coronel, que olhou para mim – ainda mais surpreendido, porquanto o meu uniforme, (passe a redundância, já passaram 37 anos e posso confessá-lo) resumia-se ao dólmen do camuflado, sem galões, um panamá de praia aos quadradinhos pretos e brancos, um calção preto de ginástica usado nas futeboladas de 5 e as botas de lona.

Comuniquei-lhe: – Sr. Coronel, estamos atrasados 2 horas em relação à partida, por isso temos três quartos de hora para passar as bagagens para cada uma das LDM – abeirámo-nos do “Poço” da LDG e concretizei o quê e as lanchas respectivas. O homem, totalmente confundido, lá se resolveu à terceira insistência e sem hesitar, a dar as suas indicações, sem saber quem era o interlocutor a dar-lhe instruções. Acrescentei que, antes de o pessoal embarcar, teria de dar algumas indicações que tinham de ser escrupulosamente cumpridas.

Em meia hora estava todo o material dentro das LDM, o que revelou uma grande eficácia. Determinei então, depois de o referido senhor, acompanhado de um Major sorridente, ter anunciado que eu próprio iria falar, o seguinte:

1. Se houvesse guerra ela seria travada apenas por nós.

2. Por isso, toda a gente tinha de ir abrigada no “Poço” das LDM.

3. Para evitar surpresas e acidentes, culatras atrás, carregador fora da G3 e câmara sem qualquer munição.

Largou a primeira LDM, largou a segunda e pedi então aos Senhores Tenente-Coronel e Major que descessem para a terceira. Desci então para o bote que me aguardava e segui para me juntar à primeira. Como o tempo entretanto já aquecera, o dólmen já se tinha tornado num empecilho e já tinha sido despedido. Belo fardamento, não acham?…

À chegada a Catió já me tinha composto, mais ou menos, porque tinha vestido o calção azul da ordem e tinha colocado o respectivo boné. Esqueci-me, todavia, da camisa e dos respectivos galões.

O bom do homem passou a viagem a perguntar ao Patrão da LDM e aos restantes elementos da Marinha quem era eu. Sem que tivessem ordem para isso, levaram o tempo todo a responder, simplesmente, “é o comandante”.
Quando a LDM que o transportava abicou, com o cais cheio dos velhos e dos novos que já se lhes tinham juntado em festa, o Senhor Coronel, empoleirado na porta da LDM, travava com os braços alguém que se lhe pudesse adiantar.

Uma vez pés em terra, apenas se preocupou em encontrar-me no meio da multidão para me agradecer a belíssima viagem até ao seu destino, sem ligar a qualquer dos surpreendidos camaradas presentes.

Nota final: aos que aguardavam no cais dei um quarto de hora para descarregarem os respectivos materiais. Descarregaram os deles e os nossos. E obrigaram-nos a voltar atrás, já o combóio se aproximava da foz do rio Cagopere…




Em Abril de 1967, um avião Harvard T6 sobrevoa o rio Cumbijã, no decorrer da protecção a um combóio da lanchas e batelões


A vida a bordo das LDM

Não era de hotel de primeira classe, mas naquelas idades…

Bem, instalávamos as arcas congeladoras, atacadas com os mantimentos, normalmente carne de vaca e de frango, os fogões Hipólito a petróleo, que davam para fazer bons petiscos, os tachos, claro, de alumínio, - agora há tachos bem melhores...-, os nossos sacos, os nossos colchões e as nossas redes mosquiteiras, no “Poço”.

As redes mosquiteiras eram relativamente eficazes e protegiam-nos das três variedades de mosquitos existentes: Uma primeira vaga de batedores (davam connosco), a segunda de sapadores que descobriam as entradas mal tapadas e a terceira vaga, lá pela meia-noite, era constituída pelos sugadores. Com estes travávamos boas batalhas durante a noite, por vezes durante a noite inteira.

No regresso de todos estes combóios, para norte ou para sul, baixada a guarda, os botes lançavam-se às ostras presas no tarrafo, quer no rio Cobade, quer no Rio Grande de S. Domingos, afluente do Cacheu. E acontecia uma festa de forte camaradagem entre a escolta de Fuzileiros e as guarnições das LDM...




Elísio Pires Carmona
2TEN FZ RN
15.º CFORN


(final)

Fontes:
Texto compilado a partir de artigo e imagens cedidos pelo 2TEN FZ RN Elísio Pires Carmona, 15.º CFORN; restantes imagens de arquivo do autor ou cedidas pela Revista da Armada, Arquivo da Marinha, CAlm Joel Pascoal e CFR Abel de Melo e Sousa.


mls

Guiné, 1990 - Os degredados do forte do Cacheu

Guiné, 1990 - Os degredados do forte do Cacheu (Post reformulado a partir de outro já publicado em 2 de Abril de 2011) No interior do forte ...