sábado, 20 de janeiro de 2018

Reserva Naval ou Velho do Restelo?


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 15 de Janeiro de 2011)

7 anos depois...





No ano que findou foram múltiplas as mensagens com “avisos à navegação” para o ano decorrente, sobre perigos e guerras económicas muito esforçadas, de gente que pouco tem edificado num reino em que já nada se sublima.

No naufrágio desta lusitana história mal contada, em mar varrido por ventos sociais e económicos adversos, enfunam-se velas garridas pintadas de cores políticas diversas, para que cidadãos menos informados embarquem em cruzeiros sem destino, iguais aos anteriores.

Desesperadamente iguais, sem rumo e sem porto de chegada. Cresce a multidão de órfãos de Valores, Família e Cidadania, agarrados às “balsas salva-vidas” largadas no mar pelas Nossas Senhoras padroeiras da Inovação, da Produtividade e da Competitividade. Que a todos hão-de valer nestes difíceis tempos de indispensáveis Fé e Esperança.

Pelo caminho, arrastadas pelas águas revoltas, debatem-se contra os habituais piratas dos mares financeiros, a Memória e História de um Povo, agora tornadas pesadelo pela inépcia, incompetência e corrupção. Com a colaboração da máquina do tempo que tudo esfuma e apaga.

Mais de meio século decorrido sobre o nascimento da Reserva Naval da Marinha de Guerra Portuguesa, em 1958, formando uma primeira geração de 1.712 oficiais daquela classe até ao ano de 1975, com tão activa como significativa participação na então Guerra do Ultramar justificava-se, sem reservas, um maior empenhamento individual e colectivo de todos, incluindo o da Instituição, na preservação da memória histórica daquele período.

Assim não tem sido!

São escassas e limitadas as abordagens pessoais e institucionais a um período histórico que parece desejar-se esquecido. Aquela geração de oficiais da Reserva Naval, tornados homens pelo tão imprevisto quanto obrigatório chamamento à participação numa guerra em que desempenharam todo o tipo de funções, mostrou estar à altura das missões de que foram incumbidos, ao serviço do País em que acreditaram.

Com o final dos conflitos e o reconhecimento da independência daqueles Estados africanos, a retirada dos territórios de Moçambique, Angola, S. Tomé e Príncipe, Guiné e Cabo Verde condicionou fortemente a retracção do dispositivo naval, obrigando ao redimensionamento e redefinição das suas vocações próprias e prioridades operacionais específicas.

Os CFORN – Cursos de Formação de Oficiais da Reserva Naval, interrompidos durante o ano de 1975, em que não teve lugar qualquer curso, foram retomados em 1976.

Até ao final do primeiro trimestre de 1992 foram formados mais 1.886 oficiais de várias classes, o que expressa um significativo aumento do número de admissões relativamente ao anterior período de 1958 a 1974, para um idêntico número de 16 anos decorridos.

Contrariamente ao que seria de esperar e para suprir necessidades de formação, a Marinha recorreu em crescendo ao exterior, sobretudo em áreas de marcada especialidade, socorrendo-se de diversas Universidades.

Assim, durante aquele espaço temporal, foram realizados 78 CFORN, repartidos pelas Escola Naval e Escola de Fuzileiros, correspondendo aos 1.886 oficiais da Reserva Naval acima referidos.

Considerada a separação por classes, foram admitidos 415 cadetes da classe de Marinha, 11 cadetes da classe de Construção Naval, 249 cadetes da classe de Médicos Navais, 11 cadetes da classe de Farmacêuticos Navais, 484 cadetes da classe de Especialistas, 50 da classe de Técnicos e 666 da classe de Fuzileiros. Os números e as questões que subjacentemente podem ser colocadas são sugestivos.

Trata-se de um universo de 3.598 Oficiais da Reserva Naval!

O final do primeiro trimestre de 1992, tido como o final da Reserva Naval que o não foi ainda efectivamente, é um marco decorrente da aplicação definitiva da nova Lei do Serviço Militar 30/87 com as alterações subsequentes que a tornaram aplicável a partir de finais de 1991.

As novas classificações de RV – Regime de Voluntariado e RC – Regime de Contrato, mais não foram que “máscaras” de uma antiga Reserva Naval modernizada e adaptada às circunstâncias exigidas.

Parece justo questionar o esquecimento a que estão votadas três décadas, desta extensa e rica parcela da História da Marinha da segunda metade do século passado, considerando como limite oficial de “existência” da Reserva Naval o ano de 1992. Que integra, além da memória histórica dos referidos 3.598 oficiais, também as das guarnições de inúmeras Unidades Navais e Serviços em terra que com eles privaram e conviveram.

Destaque especial para os que serviram nos teatros de guerra em que os dispositivos navais incluíam Avisos, Fragatas, Corvetas, Navios Hidrográficos, Navios-patrulha, LFG – Lanchas de Fiscalização Grandes, LFP – Lanchas de Fiscalização Pequenas, LDG – Lanchas de Desembarque Grandes, LDM – Lanchas de Desembarque Médias, LDP – Lanchas de Desembarque Pequenas, Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros e ainda Unidades e Serviços em terra.

Quando comparada com a do ano precedente, dificilmente este ano poderá significar uma travessia melhorada na defesa dos valores culturais adquiridos, na construção da memória histórica a que o país e todos têm direito e na prossecução de acções inovadoras que visem a continuidade do espírito Reserva Naval e da sua memória histórica.

Com a consciência plena do que atrás afirmo e ciente da diminuta quota parte de responsabilidade que a mim me cabe, continuarei determinadamente empenhado, honrando a memória dos que vão deixando o nosso convívio, chamados que foram para o embarque da última comissão de serviço para que estamos todos mobilizados.


...continuarei, não até que a minha mão me doa mas até que o teclado se parta!

Fontes:
Texto e fotos de arquivo do autor do blogue; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Anuário da Reserva Naval 1976-1992, Manuel Lema Santos, Lisboa, 2011;


mls

3 comentários:

  1. Comentário enviado por mensagem que se supõe dever ser inserido num contexto de opinião pessoal sobre o tema:

    "...Há tempos atrás estive num almoço, em Lisboa. Convívio puro e simples. Mas não deixou de se falar de coisas sérias. E uma delas foi da Reserva Naval e, como também não podia deixar de ser, já que todos tínhamos sido RN, da AORN. A ideia com que se ficou é que esta última estaria à beira da agonia. Esperemos que um novo fôlego a possa salvar…

    Provavelmente as coisas estão todas ligadas. E como vemos a Marinha de Guerra definhar ano após ano, nem nos surpreendemos que tudo vá na voragem.

    Belo texto, pelo qual te felicito. Bem que gostaria que os valores, os nossos, não se escapassem no vórtice que nos enrola. Não sei o que pensar, já que toca todos os aspectos da vida.

    Ainda esta semana, em minha casa, uma professora amiga confessava desgostosa que já nem estava preocupada com as penalizações. Tinha de vir embora. As razões? Encontravam-se na caderneta escolar. Nada mais era preciso…

    Saúde e um abraço.

    Pires Carmona
    15,º CFORN
    Castelo Branco
    ..."

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  2. Comentário enviado por mensagem que se supõe dever ser inserido num contexto de opinião pessoal sobre o tema:

    "...As minhas felicitações pelo "chamamento", pela sua qualidade e pela forma!
    É ...ía a dizer triste, mas creio que a palavra mais correcta será "preocupante", o alheamento com que o homem se vai (não) preocupando com a paz, pão, saúde, habitação ...e educação dos seus e de si mesmo!
    Sinal dos tempos, dirão uns!
    ...é da maldita televisão, dirão outros!
    É a realidade dos dias de hoje, vamos constatando todos aqueles menos egocentristas!

    Não sei se o chamamento será ouvido!?
    Começamos a ficar "velhos", de ideias e de vontades, cansados, vencidos pelo consumismo e sua filosofia!

    Levo já 15 meses de Maputo e já visitei o Centro e o Norte do País. Começo a conhecer as gentes, continuo no entanto a não perceber o homem que aqui vive, muito menos os seus chefes! Está tudo por fazer mas asumidamente não querem nem fazer nem que se faça.

    No fim de contas o mesmo alheamento que nos atinge nesse rincão à beira-mar plantado!

    Em Abril regressarei e...tentarei ouvir o chamamento!

    Até lá,...

    Das costas do Índico,
    desde Maputo,
    onde as acácias rubras e amarelas
    tornam menos taciturnas as já de si tão maltratadas ruas,
    por onde fervilha gente para quem cada dia
    É VIVIDO COMO UMA VIDA!,
    a quadra que vamos viver e onde apregoamos paz, solidariedade, tolerância…
    e também caridade,
    caridade tantas vezes mesclada de uma hiprocrisia que ofende o ser que,
    entre outras definições,
    afirma PENSO, LOGO EXISTO!,
    obriga-nos a reflectir no HOMEM que somos,
    naquilo que alguns o fazem ser,
    cada vez mais egocentrista,
    cada vez menos solidário,
    cada vez mais apregoando uma fraternidade que se revela inconsistente!
    E, como não é suficiente dizer BASTA a esta dinâmica que este mundo moderno potencia,
    face às indiferenças e às arbitrariedades da balança da justiça,
    saudemo-nos num abraço amigo,
    em votos de boa saúde
    e de BOAS FESTAS e um ANO NOVO 2011 com esperança em melhores dias

    JCarmona
    CMG FZ
    20º CFORN
    ..."

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  3. Comentário enviado por mensagem que se supõe dever ser inserido num contexto de opinião pessoal sobre o tema:

    "...Mais um excelente artigo do meu querido amigo e camarada, prevendo uma janela para os camaradas que prestaram serviço na Armada depois do 25 de Abril. Parabéns Manel e uma vez mais obrigado.

    Um forte abraço
    Nené Cardoso
    21.º CFORN
    ..."

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