sexta-feira, 18 de agosto de 2017

LDM 202, Marinha e Reserva Naval - Uma entre tantas outras na Guiné


Guiné - LDM 202


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 21 de Março de 2010)




Uma visão possível da LDM 202 na Guiné, numa mistura de Bissau, rio Cumbijã e rio Cacheu


Dificilmente um oficial da Reserva Naval que tenha efectuado uma comissão na Guiné a navegar, em terra ou como fuzileiro, terá deixado de arrecadar no seu baú de episódios e relatos vividos um embarque numa Lancha de Desembarque Média, afinal uma lendária LDM.

Em escoltas a combóios logísticos ou como reforço de escolta de outras unidades. De Bissau a Farim, no extremo montante do rio Cacheu, ou a Gadamael, início do corredor de Guileje, no sudoeste. Diferentes itinerários podiam incluir Binta, Ganturé, S. Vicente, Cacheu, Teixeira Pinto, Bolama, Catió, Bedanda, Cacine, além de outros locais, obrigatórios na rotina operacional daquelas unidades navais.

Pormenorizando mesmo mais, existiam alguns portos, se assim se podia chamar a locais de abicagem improvisados com grande imaginação, coragem marinheira e as LDM atascadas no lôdo, aqui se adicionam arrojadamente Bissum no rio Armada, afluente do rio Cacheu ou Cabedú, com acesso pelo rio Lade, afluente da margem esquerda do rio Cumbijã, na foz junto ao ponto CC (Charlie-Charlie), ponto que referenciava a confluência dos rios Cobade e Cumbijã.

Com espírito de solidariedade e camaradagem a que se juntava uma pitada de aventura, houve quem se voluntariasse mas, a rotina normal assentava na escala de que “tocava a vez a todos”. Habitualmente eram nomeados para o comando dessas missões oficiais subalternos das Companhias ou Destacamentos de Fuzileiros, da Esquadrilha de Lanchas ou até prestando serviço em Terra.

Exceptuavam-se naturalmente os que, pelas funções desempenhadas, estavam permanentemente embarcados em LFP, LDG, LFG ou outras unidades navais. No meu caso pessoal, talvez possível excepção, o CDMG terá aproveitado a permanência da LFG «Orion» em cruzeiro no rio Cacine, para me nomear para participar na operação “Sol”, com a LDM 307, comandando a unidade e embarcando a Companhia do Exército estacionada em Cabedú, visando uma acção militar a sul da ilha de Melo.

Ficará para mais tarde o relato desse filme rodado com um actor «rookie», recém-saído da Escola NavaL, escassos dois meses e meio depois de ter sido nomeado para a Guiné como oficial imediato de uma das cinco LFG que ali estavam atribuídas operacionalmente.




Guiné - A LDM 202 a navegar lado a lado com outra LDM, com fuzileiros embarcados

Mas porquê a LDM 202? Nenhum significado especial. É apenas uma amostra aleatória de 42 possíveis Lanchas de Desembarque Médias das diversas classes que estacionaram na Guiné.

Podia ser abordada mais uma vez a LDM 302, massacrada várias vezes em combate, nas arriscadas missões que sempre desempenhou até ser retirada operacionalmente do rio Cacheu.

Ao tempo, ficou a pairar como que uma estranha maldição que se teria abatido sobre aquela lancha, influenciando o Comando de Defesa Marítima da Guiné a ponto de, após o último revés sofrido naquele rio, passar a efectuar missões operacionais no rio Grande de Buba integrada no dispositivo da TU 4.

Mereceu-me a LDM 202 este apontamento porque alguém, leitor do blogue, tendo pertencido a uma das muitas guarnições que prestaram serviço naquela unidade naval, aqui deixou escritas meia dúzia de linhas corajosas, dando conta da carga negativa que ainda consigo transporta, transcorridas mais de quatro décadas.

Afinal, situações e acontecimentos semelhantes às protagonizados pela LDM 302 foram vividas por muitas outras unidades idênticas, ou até sem o serem, mas partilhando todas um díficil e pesado teatro de conflito.

As guarnições estavam sujeitas a longos períodos operacionais, afastadas dos centros de abastecimento e com condições precárias de habitabilidade. Um clima extremo e cenários de navegação frequentemente hostis com emboscadas ou ataques inesperados, obrigavam a permanente e desgastante atenção.




1973 - Algures no rio Cacheu, próximo de Ganturé, outra LDM da classe 200, a LDM 204, com elementos do DFE 1 embarcados

Frequentemente, apenas o factor sorte marcou a fronteira entre a passagem incólume e o recontro com feridos graves ou mesmo culminando com a perda de vidas.

A LDM 202 chegou à Guiné no princípio de 1964 e destaca-se no início da sua vida operacional a missão de apoio logístico à "Operação Tridente" que decorreu de Janeiro a Março desse ano.

Mais tarde, de 21 a 24 de Abril, efectuou o desembarque do DFE 7 na região de Cametonco, ilha de Catunco, com o apoio da LFG «Escorpião».

Além de rotineiras missões de fiscalização, transporte e apoio logístico, a LDM 202 participou em diversas acções militares envolvendo transporte de forças de fuzileiros, outras forças e colaboração com unidades navais, tendo sido flagelada ou emboscada por diversas vezes.

Entre 1964 e 1968, esteve presente nas operações Touro, Dedal, Tornado, Inspecção, Braçal, Gato, Bina, Salto, Rio, Coco, Trinca, Galo, Tejo, Sado, Faneca, Piranha, Elsa, Hidra, Vega, Antares, Teste, Sirius, Espiga, Átria, Fomalhaut, Alviela, Mizar e Deneb.

Continuou depois a actividade operacional, quer participando noutras acções de fiscalização e transporte quer ficando atribuída a disposivos de forças navais constituídos em bacias hidrográficas nos rios Cacheu, Mansoa, Geba, Corubal, Grande de Buba, Tombali, Cacine e Cumbijã até ser abatida em 30 de Novembro de 1972.

Aqui deixo este possível rascunho ao leitor do blogue e antigo membro da guarnição da LDM 202, extensivo a todas as outras guarnições das LDM, quer pelas apreciações feitas quer por ter pertencido a uma dessas unidades que tanto honraram a Marinha pelo empenhamento, abnegação e sacrifício postos no cumprimento das missões.

Abaixo, passo a transcrever as mensagens trocadas:




Em 2008.11.17, em comentário ao post “As LDM na Guiné” Luís Lucas DaSilva escreveu:

"Cordiais saudações!
Estou feliz pelo autor do texto e pela sua leitura, que muito agradeço.
Ao ler o texto, por sinal muito bem elaborado, recuei no tempo e no espaço e recordei com enorme tristeza e um forte peso no peito os longos, dias, semanas, meses e anos que passei na LDM 202, no período de 1968 - 1970.
Realmente, tal como texto refere, não foi fácil ser tripulante de uma LDM por todas as razões associadas a uma guerra terrível. Sem dúvida que todas as guarnições prestaram ao país um serviço exemplar, dedicado, empenhado e com elevado sentido de responsabilidade.
A minha mágoa, que ainda persiste, lamentavelmente, é que pouco ou nada se falou ou se escreveu sobre o serviço que as LDM e as suas tripulações prestaram em especial na Guiné. Valha-nos a feliz iniciativa do autor do texto, que não tenho o prazer de conhecer para lhe dar um afectuoso abraço de admiração e de reconhecimento pelas suas palavras escritas que tocaram fundo no meu coração.
Bem haja em meu nome e do nome de tantos camaradas que navegaram nos mares de sofrimento da linda e querida Guiné.
Com amizade, sou,
Luís Lucas DaSilva"



Em 2008.11.22, em resposta à comunicação anterior sobre "LDM vs LDM 202" o autor do blogue publicou:

"Caro Amigo e Camarada,
Que imenso mar de recordações, misto de amargura e saudade, ao lembrar LDM, LDP, LD, LFG, LDG, LFP, DFE, CF, Bissau, Cacheu, Cacine, Cumbijã, sei cá, tanta coisa mais!
Sem ter o prazer de o conhecer, partilho consigo essa enorme vaga de tão controversos quanto vivos sentimentos. Por momentos, quando li o seu comentário, voltei atrás umas dezenas de anos e recordei vivências únicas que incluem, ainda hoje e especialmente, as LDM.
Senti-me feliz e grato pela sua apreciação, sinais que me encorajam a não desistir de uma difícil cruzada em que, tal como sucedia na Guiné, navegávamos dias a fio, sem regresso assegurado. Quem o tinha?
Sem outra companhia que não a dos camaradas de caminhada ou de porto de acostagem.
E eram tão poucos...
Sinto-o no desinteresse da sociedade que nos rodeia e que parece não partilhar os mesmos valores da História dos últimos 50 anos. Só que os do seu próprio País. Condenando-o a um passado recente envergonhado e deliberadamente esquecido.
Em cada post publicado opor-me-ei sempre, mantendo viva a memória da Reserva Naval da Marinha de Guerra a que pertenci, mas também a da sua LDM 202 e nossas, tantas elas eram, as LDM.
As LDM e todas as outras unidades com guarnições de Homens que, determinadamente, se empenham em manter esse passado recente bem presente.
Com orgulho e de cabeça erguida.
Disponha com Amizade e Camaradagem.
Um abraço,
mls"



Em 2008.11.25, resposta de L. DaSilva:

"Prezado amigo!
Foi com enorme satisfação que recebi a sua mensagem. Aliás, passados tantos anos é bom, muito bom, comunicar com alguém que se exprime numa linguagem apenas conhecida por aqueles que, como escreveu, souberam "navegar em mares de de dúvida, sofrimento, dor, aflição e angústia, etc".
Li e reli a sua mensagem e compreendi pelas suas palavras escritas que tem uma missão muito nobre para concretizar. Compreendi o seu sentimento. Realmente, é necessário que os portugueses e quem nos representa não fiquem esquecidos de uma realidade que "mexeu" com uma geração inteira de homens e suas famílias.
Por isso, prezado amigo, sou a favor dos seus objectivos, do seu empenho, da sua luta em levar por diante o esclarecimento que o nosso povo carece.
Pela minha parte assumo parte de uma "culpa" que é a de nada fazer para dar a conhecer o meu sentimento de alguma revolta em relação ao que se passou na Guiné. Mas, prezado amigo, durante muitos anos não tive ajuda de nenhum especialista para me ajudar nos meus muitos problemas de ordem psíquica e emocional, que sózinho tive que enfrentar.
Não fui capaz de resistir às pressões do quotidiano devido ao meu estado físico e emocional. E este drama durou anos a fio ao ponto da família se ter destruído com uma separação. Hoje reconheço que tive parte da culpa do que sucedeu no meu casamento, na minha família.
Mas estou completamente de acordo que se use de todas vias possíveis no sentido de não se deixar passar no tempo uma realidade terrível que ainda hoje "dorme" na mesma "cama" de todos aqueles que a viveram.
Estou revoltado, frustrado, triste com os governantes deste país que pouco ou nada fizeram para reparar as muitas perdas, completamente irrecuperáveis, de homens como nós que experimentamos e vivemos um contexto de guerra terrível, especialmente nas LDM e das outras embarcações da Marinha de Guerra.
Penso que a própria Marinha de Guerra muito poderia contribuir se conseguisse desenvolver um mecanismo que juntasse as tripulações das diversas embarcações que estiveram presentes nas diversas frentes de guerra.
Seria extremamente salutar para homens como eu rever os antigos camaradas e com eles partilharmos experiências de vida. Igualmente, seria muito salutar organizar visitas à Base Naval e ao Alfeite. Mas, infelizmente, nada disso existe que nos anime e nos entusiasme.
Pela minha parte consegui materializar um sonho de muitos anos que foi visitar a Guiné Bissau e alí pude verter lágrimas, muitas lágrimas que expressaram um misto incrível de sentimentos que não mais vou esquecer.
Enfim, amigo, valeu a leitura do texto que escreveu no Blog da Reserva Naval, que muito me alegrou, bem assim como a sua mensagem, aliás, que muito agradeço.
Bem haja por tudo.
Com admiração, sou,
L. Lucas DaSilva"



Em 2008.11.25 resposta a de L. DaSilva:

"Meu Caro Amigo,
Grato pelas suas palavras que apreciei.
No final de uma dezena de anos, em que partilho o meu tempo disponível com a causa Reserva Naval, talvez possa resumir a algumas escassa dezenas, o número de colaborações, participações, relatos, comentários ou mesmo críticas ao blogue ou à página que, com meios próprios e alguma boa vontade, vou mantendo com a ideia já sedimentada de que escrever é saudável para o espírito e liberta.
Quando rabisco para um conjunto de pessoas, transmitindo nessa escrita memórias vividas, sentimentos e valores adquiridos, mantenho-me com rumo definido, ainda que não visualize ou conheça a maioria dos leitores.
Como terá possivelmente constatado fui oficial da Reserva Naval, no meu caso imediato da LFG “Orion” mas, como eu, foram cerca de 3.300 ao longo de três décadas dos quais, mais de um milhar estiveram num dos teatros de guerra, em Angola, Moçambique ou Guiné.
Embarcados em quase todo o tipo de unidades navais, incluindo destacamentos, companhias de fuzileiros ou também as LDM em escoltas, combóios ou operações pontuais, desempenhámos as missões de serviço para que fomos nomeados, como todos os "marinheiros".
Se algumas vezes todas aquelas unidades e guarnições se encontraram em situações menos fáceis, e assim foi em muitos locais, noções como espírito de equipa, solidariedade, resistência ao desgaste e partilha, adquiriram uma dimensão especial nos valores adquiridos.
Que mantenho, motivo porque sempre que o entender, mencionarei e incluirei as LDM no trabalho que estou a fazer com gosto, sobretudo o blogue. Sinto alguns leitores do outro lado e isso, ainda que não seja suficiente, aconchega e motiva.
Aproveito para lhe perguntar se tem alguma imagem ou algum acontecimento interessante passado com a LDM 202. Proximamente, talvez este fim-de-semana caso o complete, insira a primeira parte do relato do afundamento da LDM 302, em cuja recuperação e reboque para Bissau, a LFG Orion também participou, na altura comigo.
Irei continuar, mais devagar ou mais depressa, com readquirida remada nos encorajamentos recebidos. Bem haja igualmente.
Um abraço Amigo,
mls"



Em 2008.11.29, Lucas deixou um novo comentário na sua mensagem
"A epopeia da LDM 302 na Guiné (1)"

Ataque à LDM 302(1):

Amigo e Senhor!
Felizmente que há ainda homens interessados em divulgar apontamentes importantes da história de guerra naval onde navios portugueses foram extremamente influentes, como foi o caso das diversas embarcações da Marinha de Guerra portuguesa nos vários "teatros" nas ex-colónias portuguesas.
Bem haja prezado senhor pela sua iniciativa, pelo seu empenho e interesse em que a nossa história chegue ao conhecimento de muitas pessoas.
Pela minha parte tomei a liberdade de reenviar este excelente apontamento para pessoas que até este momento ignoravam a realidade vivida pelos marinheiros portugueses na guerra do ultramar.
Com admiração, sou,
Luís Lucas DaSilva




Fontes:
Arquivo de Marinha; Revista da Armada; fotos de arquivo do autor do blogue; Setenta e Cinco Anos no Mar, 17.º Vol, 2006, Comissão Cultural da Marinha;


mls

1 comentário:

  1. Meu caro Lema Santos
    Sabia que o desafio que fiz não iria cair em saco roto . Parece -me , pelo que tenho lido ,que a fase mais díficil , o arranque , está conseguido . Tenho tentado contactar elementos das guarnições das LDM ´s para que facultem dados sobre as respectivas vivências .
    Parabéns . Um abraço do E. Gomes

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